A retirada dos jovens do ambiente isolado de seus quartos vai além de simplesmente pedir que saiam de casa. Especialistas afirmam que as famílias têm a obrigação de criar alternativas de lazer que mantenham os filhos longe das telas.
O primeiro passo para essa mudança é compreender os interesses dos adolescentes. A psicóloga Silvia Missi ressalta que o incentivo deve oriundar dos interesses genuínos dos jovens, evitando atividades que sejam impostas pelos adultos. “Isso pode incluir teatro, dança, cerâmica, crochê ou qualquer outra atividade que faça sentido para ele. O foco deve ser identificar esses interesses para ampliar as possibilidades de interação”, destaca.
A abordagem para estimular essas atividades deve ser natural, evitando que se torne uma forma de pressão. Silvia sugere que não é necessário começar com grandes eventos, mas sim com pequenas ações, como sair para tomar um sorvete ou convidar um amigo para assistir a um filme. Esses passos graduais podem ajudar a criar uma convivência mais leve e menos ansiosa.
A psicopedagoga Vanessa Cavalcante reforça que atividades em grupo são essenciais para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. “Crianças e adolescentes precisam de experiências que possibilitem a comunicação não verbal e a troca de ideias. Essas competências são formadas na interação com outras pessoas em situações concretas”, explica.
Vanessa ainda aponta que, mesmo que uma criança ou adolescente não tenha exercitado essas habilidades anteriormente, novas experiências podem fortalecê-las. Ela afirma que “esse desenvolvimento é adaptável, e experiências consistentes de interação podem favorecer a recuperação e o fortalecimento dessas capacidades”.
Além de promover a socialização, o estímulo a essas atividades serve como uma proteção. A psicóloga Clarisse Timbó alerta que jovens que não encontram grupos positivos tendem a se tornar mais suscetíveis a associações perigosas ou extremistas. “A busca por pertencimento é natural. Se os adolescentes não encontram um grupo saudável, irão procurar esse sentimento em outros locais, podendo se envolver em ideologias prejudiciais”, adverte.
Diante disso, é fundamental que o incentivo a atividades sociais inicie o quanto antes. Clarisse enfatiza que “interagir com os outros está diretamente relacionado ao nosso desenvolvimento enquanto seres humanos. Isso se torna ainda mais evidente na infância”.
A experiência de Laryssa Pontual com seu filho Davi, de 10 anos, ilustra essa abordagem. Para ela, que notou que Davi estava passando muito tempo em casa, o ideal não é eliminar o uso de telas, mas diversificá-las. Laryssa procurou criar opções de lazer e convívio que respeitassem os interesses do filho. Com o tempo, Davi começou a explorar novas formas de diversão, percebendo que havia vida fora das telas.
Ela recomenda criar um ambiente onde as crianças possam viver experiências além da tecnologia, como conversar, brincar e fazer novas amizades. Isso, segundo Laryssa, muitas vezes exige os esforços dos pais para criar essas oportunidades adequadas.
Para ajudar os jovens a se distanciar do isolamento em casa, aqui estão algumas sugestões práticas:
1. Estabeleça momentos familiares sem o uso de celulares, como refeições ou períodos aos fins de semana.
2. Esteja atento a mudanças de comportamento, como a recusa frequente em sair ou perda de interesse por atividades prazerosas, que podem indicar a necessidade de um acompanhamento mais especializado.
3. Evite transformar encontros sociais em obrigações; incentivar a socialização de maneira gradual é fundamental.
4. Planeje atividades familiares, como passeios ou jogos, que criem momentos de interação sem a sensação de cobrança.
5. Estimule responsabilidades externas, como passear com o cachorro ou realizar pequenas tarefas, para fomentar a autonomia.
6. Incentive a participação em atividades em grupo, como esportes ou teatro, que promovam a interação.
7. Conheça os gostos dos adolescentes para facilitar a inclusão em atividades que realmente sejam do interesse deles.
8. Explore opções de voluntariado para fortalecer o sentimento de pertencimento.
9. Dê exemplo em casa, reduzindo o tempo de tela dos adultos.
10. Promova encontros com amigos para ajudar aqueles que têm dificuldade em iniciar essas interações.
Além do que ocorre em casa, a escola desempenha um papel importante ao criar oportunidades para que crianças e adolescentes aprendam a conviver e cooperar. O ambiente escolar, com interações como recreios e trabalhos em grupo, é essencial para o desenvolvimento social dos jovens.
Os educadores devem ser observadores não apenas das dificuldades acadêmicas, mas também do comportamento de alunos que se isolam. A identificação de crianças que ficam sozinhas pode permitir que a escola ofereça suporte, criando projetos cooperativos e iniciativas de prevenção à exclusão.
Iniciativas que vão além do conteúdo escolar são atrativas para os alunos, promovendo rapidamente o desenvolvimento das habilidades sociais. Momentos como jogos e atividades coletivas permitem que jovens interajam de forma significativa e natural.



