“Evento fechado patrocinado por Vorcaro”
A marca escocesa de uísque The Macallan, com quase 200 anos de história, tem um passado repleto de episódios curiosos. Um dos mais famosos ocorreu em 2017, quando um jovem milionário chinês, Zhang Wei, pagou 10.000 francos suíços, o equivalente a R$ 50 mil na época, por uma dose de uma garrafa raríssima de Macallan 1878 em um luxuoso bar suíço. Contudo, após colecionadores detectarem erros em fotos publicadas, o hotel apressou-se a enviar a garrafa para testes de laboratório, que demonstraram que o conteúdo data na verdade dos anos 1970, sendo um blend comum. O hotel se viu obrigado a devolver o valor pago ao cliente pessoalmente na China.
Um outro incidente aconteceu no início dos anos 2000, quando a própria Macallan adquiriu um lote de garrafas antigas supostamente vintages de 1841, 1851 e 1861 de um colecionador. Após análises de mestres destiladores sobre o sabor, a marca lançou a linha “Macallan Replica Series”. Porém, descobriu-se que as garrafas eram falsificações, mas as réplicas acabaram se tornando itens de colecionador. Além disso, houve uma disputa no século XIX, onde falsificadores mencionaram no rótulo o nome de Roderick Kemp, que nunca teve posse simultânea das destilarias Macallan e Talisker, pois vendeu suas ações da Talisker antes de adquirir a Macallan em 1892.
Uma outra particularidade envolve o sabor do Macallan, que utiliza barris de carvalho que anteriormente armazenaram Vinho de Jerez. Na verdade, esses barris são fabricados sob encomenda pela Macallan, que utiliza vinho de qualidade inferior apenas para temperar a madeira antes de descartar o líquido. Os barris, então, são enviados para a Escócia para receber o uísque.
Recentemente, em novembro de 2023, a marca estabeleceu um recorde ao vender uma garrafa do The Macallan Adami 1926 em um leilão da Sotheby’s por U$ 2,71 milhões, equivalente a mais de R$ 13 milhões. Apenas 40 garrafas desse lote foram produzidas, sendo que o uísque envelheceu por 60 anos.
Além das curiosidades do uísque, surge o caso Vorcaro, que inclui um controverso Grupo Macallan, identificado pela Polícia Federal, que organizava eventos de luxo visando atrair figuras influentes do governo. Informações obtidas de celulares de um ex-banqueiro revelaram conversas entre Vorcaro e o ex-ministro das Comunicações, Fábio Faria, discutindo encontros com personalidades políticas como o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre.
O nome do grupo se refere a um evento fechado, patrocinado por Vorcaro, para degustação de uísque Macallan e charutos, realizado em 25 de abril de 2024, no George Club em Mayfair, Londres, com custos em torno de U$ 640,8 mil, cerca de R$ 3 milhões. O evento teve a presença de importantes figuras do governo brasileiro, incluindo os ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, entre outros.
Em janeiro de 2025, foi reportado que Flávio Bolsonaro utilizou um jato executivo pertencente a cotistas próximos a Vorcaro para uma viagem de Fort Lauderdale, EUA, a Brasília, com familiares e um amigo advogado. Este mesmo avião, um Embraer Legacy 650, já havia sido usado anteriormente por Alexandre de Moraes, gerido sob propriedade compartilhada pela Prime You. Flávio, que havia criticado publicamente Moraes, acabou ironizando a situação nas redes sociais.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem dificultado a instalação de uma CPI do Banco Master, afirmando que a leitura de requerimentos é de sua prerrogativa. Ele rejeitou pressões para discutir os pedidos em sessão, optando por priorizar a análise de vetos presidenciais. O Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu mandados de segurança solicitando a leitura dos requerimentos, mas suas recentes deliberações mantiveram os pedidos paralisados.
O senador Alessandro Vieira protocolou um mandado de segurança exigindo que Alcolumbre analisasse a criação de uma CPI em 48 horas, visando investigar relações financeiras de Vorcaro com os ministros Moraes e Toffoli. O pedido foi negado pelo ministro Cristiano Zanin, alegando falta de evidências para justificar uma omissão ilegal. Enquanto isso, outro grupo de senadores e um deputado também impetraram mandados de segurança cobrando andamento para investigações sobre o Banco Master, mas sem sucesso.
Recentemente, o Conselho Superior do Ministério Público Federal blindou Gonet e o procurador-geral, em uma votação apertada, rejeitando um pedido de afastamento das investigações relacionadas ao ministro Moraes e Vorcaro. O procurador foi visto em um evento social próximo a Moraes, o que levantou suspeitas sobre sua imparcialidade. O CNJ também cancelou pagamentos de R$ 4,7 bilhões em precatórios ligados ao Banco Master, após denúncia da Advocacia-Geral da União. Tal decisão foi tomada devido a práticas irregulares que o banco adotou ao contabilizar créditos judiciais.
Enquanto isso, Gilmar Mendes comentou a necessidade de investigar assumidas conexões corruptas envolvendo precatórios, mas negou ter qualquer envolvimento com Vorcaro. As investigações foram interrompidas devido a disputas internas no STF, levando à suspensão de novos pedidos de busca e prisão. Uma controvérsia crescente no controle do processo indicou uma grave crise nas esferas política e judicial do país, com debates acalorados sobre a ética e a integridade nas instituições públicas, deixando a República em uma situação delicada.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.



