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Um Ano Depois: O Renascimento do Multilateralismo – 01/10/2026 – Mundo

Na Assembleia Geral da ONU, o discurso do presidente Donald Trump, proferido no ano anterior, deixou uma impressão marcante: ele defendia uma nova ordem mundial fundamentada na força e na convicção de que “a única coisa que resolve as guerras é a ação”.

Essa perspectiva se concretizou no chamado Conselho da Paz, que, no entanto, enfrenta atualmente uma diminuição na sua relevância, ao passo que o Grupo de Haia, criado em resposta ao genocídio na faixa de Gaza, tem se afirmado como uma coalizão em defesa do multilateralismo pautado por direitos, equidade e justiça.

Na sua recente participação na Assembleia Geral, Trump continuou a enfatizar a supremacia da força. Um ponto digno de nota foi seu isolamento diante de um apoio crescente a iniciativas multilaterais, especialmente quando o presidente Lula, em um momento significativo de sua trajetória, propôs que a ONU fosse restaurada como um “templo da paz”.

Embora Trump tenha feito ameaças de atacar o Irã durante seu discurso, seus representantes estavam nos bastidores buscando negociações com o chanceler iraniano Abbas Aragchi, o que sugere um reconhecimento das limitações da abordagem coercitiva.

Um ano após muitos proclamarem seu fracasso iminente, o multilateralismo apresenta sinais de renascimento. Contudo, os desafios persistem: cortes de financiamento, desrespeito pela soberania, violações das normas de guerra, inação frente à crise climática e a concentração de poder econômico.

Esses problemas, no entanto, não são novidades. A Guerra Fria foi marcada por um impasse no Conselho de Segurança, e a incapacidade do multilateralismo em prevenir atrocidades em Ruanda e na Bósnia ainda ecoa, especialmente considerando os desdobramentos da invasão do Iraque, que continuam a impactar a situação na Ucrânia. A pandemia evidenciou nossa interdependência e a dificuldade em converter solidariedade em ação efetiva.

Contrariando o pessimismo do ano passado, a atual Assembleia Geral demonstrou um forte apoio internacional à revitalização do multilateralismo. A abertura do evento foi marcada pelo lançamento da Parceria pelo Multilateralismo, uma iniciativa de sete governos e da União Europeia com o objetivo de reafirmar compromissos em relação a instituições, normas e acordos internacionais. Como destacado por vários líderes, “a cooperação não é um ato de idealismo, mas uma necessidade prática”.

Os desafios globais atuais, como a crise de segurança alimentar impulsionada pelo fechamento do estreito de Hormuz, pela guerra na Ucrânia e por fenômenos climáticos como o El Niño, tornam evidente que a questão não é mais se o multilateralismo resistirá, mas de que forma ele precisa se adaptar para enfrentar os desafios contemporâneos.

Dentre essas questões estão a inteligência artificial e a desigualdade. Os presidentes William Ruto, do Quênia, e Alexander Stubb, da Finlândia, apresentaram a Iniciativa das Potências Médias para a Inteligência Artificial. Dada a predominância de Estados Unidos e China neste campo, bem como a concentração de poder tecnológico em poucas empresas, existe o risco de que antigas relações de dependência se reproduzam no ambiente digital.

Uma proposta que também ganhou destaque foi a criação de um Painel Internacional sobre Desigualdade, inspirado no IPCC, que reunirá dados sobre desigualdades dentro e entre países para subsidiar reformas financeiras, tributárias e de proteção social. Essa iniciativa, impulsionada por países como Brasil, Noruega, África do Sul e Espanha, busca uma resolução da Assembleia Geral.

O futuro do multilateralismo não será definido por uma única liderança, nem garantido por discursos ou novas propostas. É imprescindível que as palavras sejam convertidas em ações, especialmente em um contexto onde a potência hegemônica observa com ceticismo as transformações na ordem internacional.

O tom desta Assembleia Geral não foi uma defesa nostálgica das instituições do passado, mas sim um clamor por soberania, por prosperidade compartilhada e pela distribuição equitativa de poder em favor do Sul Global. Se o encontro anterior foi marcado por uma sensação de crise, o atual indica uma nova direção: diante dos desafios do século XXI, a atuação isolada não é mais uma alternativa viável.

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