Em sua análise sobre ESG, Pedro Vieira Bontempo Cardoso, gerente de área de controles internos e SOX na ArcelorMittal FCLatam, observa que, ao abordar esse tema, as empresas se referem à gestão dos impactos ambientais, sociais e de governança corporativa. Este assunto, que antes era tratado apenas como retórica, tornou-se uma exigência real por parte de reguladores, investidores e consumidores, que demandam evidências, indicadores e transparência.
Nesse contexto, destaca-se o CSRD, uma norma da União Europeia que exige que as empresas reportem os impactos ambientais e sociais, além de como os temas relacionados ao ESG influenciam os negócios. Entretanto, muitos começam pelo final, buscando selos, frameworks e relatórios antes de implementar uma base sólida de governança de dados. Em várias organizações, os dados utilizados para relatórios de ESG ainda são gerados por planilhas, e-mails e registros locais, resultando em baixa padronização, rastreabilidade e revisão. Esse cenário cria um paradoxo, pois enquanto se exige qualidade nos relatórios financeiros, os processos de coleta de dados são frágeis.
Um relatório recente indica que 57% dos executivos reconhecem a qualidade dos dados como principal desafio relacionado ao ESG em suas empresas, e 88% mencionam esse tema entre os seus três maiores obstáculos. Além disso, 81% dos entrevistados relatam dificuldades na documentação, como revisão, aprovação formal e certificação de dados ESG, itens que geralmente são bem estabelecidos em relatórios financeiros, mas ainda carecem de consolidação nos de sustentabilidade.
A situação se complica devido ao fato de o CSRD estipular princípios e expectativas de qualidade, mas não oferece um guia operacional claro. Sem um propósito definido, as empresas podem acabar coletando muitos dados sem saber como utilizá-los. Questões centrais surgem: quais riscos devem ser monitorados? Quais dados são essenciais para a tomada de decisões? Quais indicadores realmente refletem o desempenho e o impacto? Nesse contexto, os KPIs são muitas vezes criados para atender a critérios formais, em vez de facilitar a gestão. Isso torna o processo de relato oneroso, complexo e com pouco retorno gerencial.
A tentação de buscar soluções tecnológicas, como inteligência artificial e análise contínua, pode ser enganosa. Embora essa tecnologia seja tida como um atalho para a maturidade, ela não resolve problemas estruturais. Se a base de dados é frágil e sem controle adequado, a inteligência artificial apenas amplificará as inconsistências. Os resultados costumam ser dashboards visualmente atrativos, mas com baixa confiabilidade.
Antes de implementar o CSRD ou considerar soluções tecnológicas, a questão fundamental que as empresas devem abordar é: quais são, de fato, os riscos ambientais, sociais e de governança que enfrentam? A partir disso, é possível determinar quais dados são necessários, quem os irá gerenciar, quais serão os controles necessários para validar as informações, a evidência que sustentará os números e quais KPIs serão usados para mensurar resultados. A governança de dados é um tema crucial e não deve ser visto como uma questão técnica periférica; ela é fundamental para que o ESG se transforme de mera vitrine em uma gestão séria, credível e que agregue valor sustentável.



