A indústria de transformação do Brasil apresenta sinais de recuperação, com previsão de crescimento de 3,4% em 2024 e 0,6% em 2025, sustentada pelos setores de bens de consumo duráveis e intermediários. Entretanto, a complexidade do sistema tributário brasileiro continua a ser um dos principais obstáculos, forçando as empresas a lidarem com um aumento constante nos custos de produção.
Uma pesquisa recente revela que 70% dos empresários da indústria consideram a burocracia tributária um impedimento para o crescimento, e 64% afirmam que o “custo Brasil” elevou-se nos últimos anos. Na lista de fatores que contribuem para esse cenário, além dos tributos, estão a infraestrutura inadequada, o custo elevado do capital, a insegurança jurídica e regulatória, e a baixa produtividade.
A escassez de mão de obra qualificada, mencionada por 62% dos empresários, e as dificuldades em obter financiamento e acessar crédito, citadas por 27%, também impactam as finanças das indústrias.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria, o Custo Brasil totaliza R$ 1,7 trilhão anualmente, representando quase 20% do PIB. Essa situação posiciona o Brasil na última colocação em um ranking de competitividade global que inclui 18 países, superado até mesmo por nações sul-americanas como Argentina, Colômbia, Peru e Chile, além do México. Essa realidade se reflete na produtividade da indústria, que caiu quase 1% nos últimos 30 anos.
O cenário atual tem repercussões diretas na competitividade das indústrias, restringindo suas margens de lucro. A infraestrutura deficiente do país encarece o frete, aumenta os prazos de entrega e requer maiores estoques de segurança, o que afeta a confiabilidade de toda a cadeia logística. Além disso, as empresas enfrentam custos administrativos elevados devido às complexidades do sistema tributário, levando a distorções na formação de preços e nas decisões de investimento.
A reforma tributária proposta visa simplificar os tributos e deveria ajudar a corrigir essas distorções e melhorar o ambiente de negócios. Contudo, o período de transição demandará cautela e liquidez, adverte um especialista. Ele destaca que, durante a transição entre regimes tributários, as empresas precisarão investir na revisão de processos, em sistemas de gestão integrados em nuvem, em conformidade fiscal e na capacitação de suas equipes para evitar um aumento nas despesas operacionais.
Essa mudança pode acarretar uma reestruturação na distribuição da produção e na infraestrutura logística nacional. No entanto, o processo poderá levar quase uma década para ser efetivamente consolidado. A reforma tributária deverá influenciar as decisões das empresas sobre local de produção, organização da cadeia de suprimentos e estrutura de distribuição.
Com o objetivo de combater a desindustrialização e apoiar a transição das empresas, o programa Nova Indústria Brasil foi implementado, incluindo R$ 3,4 trilhões em investimentos contratados, que já direcionaram R$ 472 bilhões para financiar mais de 168 mil projetos de modernização produtiva. Diante da necessidade de atender às exigências de eficiência, 73% das grandes indústrias têm planos ativos de investimento produtivo em 2024 para não perder espaço no mercado global.
Nesse contexto, a escolha de investimentos de capital se torna ainda mais crítica, especialmente em um cenário econômico em que é necessário requalificar 14 milhões de trabalhadores até 2027 e integrar recursos avançados de inteligência artificial e automação para conter a queda de produtividade e garantir a sobrevivência na nova manufatura global.
Embora o uso de inteligência artificial no setor industrial brasileiro tenha aumentado de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, evidenciando uma melhoria na posição do Brasil no Índice de Prontidão Digital, mais de 30% das indústrias nacionais ainda não implementaram as tecnologias básicas da Indústria 4.0. É fundamental preparar a força de trabalho para uma mudança significativa na indústria que envolva automação, digitalização e a adoção de tecnologias emergentes. A reindustrialização deve priorizar não apenas um aumento da produção, mas também uma melhoria na qualidade dos produtos.
Entretanto, esse avanço tecnológico, a adaptação à reforma tributária, a capacitação da mão de obra e as iniciativas para reduzir o Custo Brasil ocorrem em um ambiente de juros elevados que limitam a capacidade de investimento. O aumento da taxa de juros e a incerteza proporcionam um cenário onde o custo do capital se eleva, levando as empresas a analisarem investimentos com ainda mais rigor, o que pode afetar desde a ampliação das fábricas até modernizações tecnológicas.



