quarta-feira, setembro 30, 2026
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Indígenas Renovam Críticas à Teia Nacional Após Conflito com a Segurança de Lula

Lideranças indígenas Tupinikim e Guarani criticam evento em Aracruz por apagamento de suas culturas

As lideranças das comunidades Tupinikim e Guarani manifestam fortes críticas em relação à Teia Nacional dos Pontos de Cultura, que está ocorrendo em Aracruz, no norte do Espírito Santo. O descontentamento aumentou após um confronto entre membros das comunidades e a equipe de segurança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira (21). Os indígenas afirmam que sua imagem e território foram utilizados como promessa do evento, mas sem assegurar um espaço real para sua participação na programação organizada pelo Ministério da Cultura e a Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult-ES).

As queixas se intensificaram a partir de relatos de agressões físicas durante uma apresentação cultural e denúncias de discriminação contra participantes nativos no evento.

Bianca Am̃aberaba, integrante do coletivo Juventude Tupinikim, informou que o objetivo era realizar um cortejo cultural com canções tradicionais e uma apresentação de congo indígena para receber o presidente. Contudo, a segurança impediu essa ação, causando embate entre os grupos. Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, os indígenas relataram que foram empurrados pelos seguranças, o que gerou confusão e tensão.

“Só queríamos fazer uma recepção cultural. Entrar cantando e tocando nosso congo, pois isso representa proteção e celebração para nós”, declarou Bianca. Ela ressalta que o grupo cumpriu todas as formalidades e estava acompanhando o evento de forma regular. “Não houve invasão. Nossa intenção era apenas recepcioná-lo culturalmente”, afirmou.

A Associação Indígena Tupinikim e Guarani também se pronunciou, defendendo a legitimidade de sua manifestação. “Temos razões para nos manifestar. Mas naquele momento, nossa intenção era apenas celebrar”, diz a nota. O comunicado também denuncia agressões durante o evento e critica a organização. “Houve uma situação que resultou em ferimentos. Não apoiamos nenhum ato de violência”, destacou.

Nos vídeos compartilhados, os indígenas expõem seu apagamento e exclusão no contexto da Teia. “O evento acontece em nosso território, mas apenas usamos nossa imagem, sem sermos protagonistas. Fomos convidados a divulgar e apoiar o movimento, mas ao chegarmos, nossa participação foi desconsiderada”, explicou uma integrante do grupo Guerreiros Tupinikim. Outros comentários reforçam um histórico de silenciamento: “O que ocorreu hoje reflete claramente o que vivemos em nossos próprios ambientes: apagamento e exclusão”, afirmaram.

A Teia Nacional teve início na terça-feira (19) e seguirá até domingo (24) com o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”. Essa edição do encontro é a primeira fora de uma capital brasileira, com a intenção de integrar a política Cultura Viva aos territórios indígenas Tupinikim e Guarani de Aracruz.

Bianca Am̃aberaba afirma que houve promessas constantes de inclusão das comunidades na organização e programação do evento, prevendo atividades nas aldeias, cortejos e feiras culturais, além de uma maior participação indígena. Contudo, essa expectativa não se concretizou. “A abertura em Caeiras Velha havia gerado esperança de que o restante da programação fosse mais ligada ao território indígena, mas isso não aconteceu”, enfatizou.

A maior parte das atividades está acontecendo no Sesc Praia Formosa, que, embora se localize em uma região com histórico indígena, não se situa nas aldeias nem em terras demarcadas. Para as lideranças, isso enfraqueceu a proposta de uma Teia construída a partir das comunidades. “A promoção usou o nome do território Tupinikim e Guarani, mas o evento, na prática, está centralizado em um local distante das aldeias”, afirmou Bianca Am̃aberaba.

As críticas surgiram antes da abertura oficial da Teia. A delegada Bárbara Tupinikim comentou ao Século Diário sua insatisfação com a escolha do local principal do evento: “Criticamos a concentração das atividades no Sesc de Aracruz, próximo ao setor industrial que impacta nossos territórios”, afirmou.

Casos de discriminação

Durante a Teia, indígenas relataram episódios de discriminação. Um caso envolveu uma idosa, com mais de 60 anos, que teria sido alvo de ofensas raciais no espaço de hospedagem do evento. Segundo testemunhas, a mulher foi hostilizada por outra ocupante não indígena do quarto a que foi designada.

Conforme o relato, a mulher teria dito que “não queria indígena fedorento” no quarto e proferido ofensas aos povos nativos. A denúncia também menciona que a bolsa da indígena foi chutada na discussão, resultando em danos a seu celular. Lideranças criticam a maneira como a situação foi tratada pela organização, afirmando que a indígena foi forçada a deixar o quarto enquanto a outra participante permaneceu. Até o momento, não houve pronunciamento oficial da organização do evento ou do Sesc a respeito.

Contradições na justiça climática

As lideranças indígenas ressaltam que os eventos trazem à tona contradições com relação ao tema da Teia: justiça climática. Para os coletivos, não é viável discutir clima e cultura sem abordar os conflitos ambientais históricos enfrentados pelas comunidades de Aracruz, que sofrem os impactos de diversos empreendimentos, incluindo a Suzano Papel e Celulose e o crime da Samarco/Vale-BHP.

A nota da associação também menciona os impactos ambientais sobre as comunidades. “A 6ª Teia Nacional, que propõe como tema os Pontos de Cultura pela Justiça Climática, é uma oportunidade para ressaltarmos como nossa cultura foi seriamente afetada nos últimos 10 anos devido ao rompimento da barragem de Mariana”, afirma o texto.

Para os líderes indígenas, a realização da Teia em Aracruz poderia ter sido um marco histórico para os povos do Espírito Santo, embora atualmente sintam que a oportunidade foi parcialmente desperdiçada. “Pode levar muitos anos até que outra Teia volte ao Espírito Santo ou ao nosso território”, prevê Bianca Am̃aberaba.

Apesar disso, ela destaca a solidariedade e articulação entre indígenas de diferentes estados que participaram do encontro. “Houve uma união entre nossos parentes de diversas localidades. Muitas instituições e lideranças observaram o que ocorreu e se posicionaram ao nosso lado”, relata. “Não aceitaremos falas preconceituosas contra nosso povo. Continuaremos firmes para que nossa cultura seja respeitada e mantenha-se viva”, conclui a nota da Associação Indígena Tupinikim e Guarani.

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