domingo, outubro 11, 2026
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A ‘Amarelinha’ da Diretoria: O Meteoro e a Barata de Gurigica

Na movimentada esquina do Bar do Zé, próximo ao Tunico’s e no coração de Gurigica, um calor intenso dominava o ambiente, superando até mesmo o asfalto aquecido da Reta da Penha ao meio-dia, em virtude da remoção das árvores pela prefeitura. Os vizinhos Tércio, conhecido como “Careca”, e Waldir Carolo, ambos medalhistas olímpicos na arte da sobrevivência, estavam em meio a um acalorado debate sobre as eleições presidenciais. O proprietário do bar, percebendo a intensidade da conversa, decidiu trazer uma cachaça especial, a “amarelinha”, famosa por seus efeitos.

Carolo, vestido com uma camiseta antiga do sindicato, virou um gole da cachaça e, ao olhar para Careca, disparou:

– Careca, votar nesse candidato é loucura. Ele é apoiado pela elite da Praia do Canto e financiado por sonegadores e milicianos. O plano deles é entregar a Amazônia e o pré-sal para o Trump, homenagear os Estados Unidos e privatizar tudo, até o vento! Eles esperam que a gente pague pelo oxigênio!

Careca, que diariamente subia o morro de bicicleta, limpou o bigode e, com bandeirinhas dos EUA e de Israel em mãos, as cravou na mesa desgastada e proclamou:

– Você não entende a visão do livre mercado, Carolo! Essas bandeiras simbolizam progresso. O Trump é um estrategista; sua intenção é desenvolver aquelas terras improdutivas e gerar emprego para nós. Meu candidato é a chave da meritocracia. Ele vai acabar com as regalias do Estado e libertar o cidadãos de bem. Em breve, deixarei a bicicleta para comprar um drone e fazer entregas aéreas por Vitória. É a força do indivíduo, sem essa ajuda governamental para vagabundos!

Carolo não conseguiu conter o riso:

– Drone, Careca? Você está no SPC desde o governo Sarney! Não esqueceu de suas origens, né? Sua mãe só operou o joelho no São Lucas graças ao SUS. Seu filho estuda no Ifes por cota e seu sobrinho está na faculdade graças ao Fies e ao ProUni! Esqueceu do Farmácia Popular que fornece os remédios para sua pressão? Foi o meu candidato que implementou o Bolsa Família e o Vale-Gás, para que sua refeição não fosse apenas vento com farinha!

– É tudo uma estratégia comunista para comprar votos! – contra-atacou Careca, ajeitando suas bandeirinhas.

– Tenho um grupo de WhatsApp que revela a verdade: o seu presidente quer fechar igrejas, obrigar todos a comer carne de calango como se fosse picanha e proibir o hino nacional! Pintar a nossa bandeira de vermelho e esconder que a Terra é plana, tudo isso enquanto o socialismo faliu em outros países. Meu candidato vai implantar um chip da riqueza. O patrão prospera, o dinheiro circula e eu quero vencer sozinho!

A gargalhada de Carolo reverberou:

– Terra plana, Careca? Você é o mesmo que passou o fim de semana no quartel, cantando o hino nacional para um pneu de caminhão! Vi você tentando se comunicar com alienígenas através de luzes de celular! Você está confiando nos et’s e colocando bandeirinhas de Israel aqui no bar, esperando ajuda de marcianos!

– E qual o problema? Os extraterrestres são contra o comunismo e apoiam nosso lado! – rebateu Tércio, com a mesma segurança de quem recita a tabuada.

– O pneu estava na frequência certa. Um patriota deve usar todas as ferramentas à disposição contra o sistema. Se o patrão está satisfeito e os extraterrestres colaboram, a economia se recupera.

– Dinheiro escorre? Só se for na forma de chicote nas suas costas! – ironizou Carolo, rindo dos absurdos.

– O cara acha que pobre deve trabalhar doze horas diárias sem férias para ‘aquecê-la’! É o dinossauro organizando um churrasco para o meteoro! A barata na privada puxando a descarga, gritando ‘viva o inseticida’! Você é o único pobre em Vitória que pensa que ficará rico por osmose!

O debate continuou nesse nível surreale. Cada argumento social que Carolo trazia era barrado pela muralha das desinformações e crenças de Careca. Para Carolo, Careca era um exemplo extremo de masoquismo eleitoral; para Careca, Carolo era um prisioneiro ideológico que não reconhecia seu próprio sucesso no metaverso.

Após duas horas e meia e uma garrafa da preciosa cachaça, as opiniões não mudaram. O Zé pediu a conta, dividida igualmente, uma vez que a visão econômica de Careca não cobria a bebida de Carolo. Aos sair, subiram as escadas de Gurigica, levando as bicicletas sob o mesmo céu estrelado e a mesma fiação clandestina. Careca guardou com carinho suas bandeirinhas.

Silenciosos, subiam levemente embriagados pela cachaça e teimosia. Careca sonhava com seu drone fazendo entregas, enquanto Carolo questionava como alguém com tantas dificuldades defendia tão fervorosamente os interesses dos ricos.

No topo, despediram-se com um “até amanhã” murmurante. Cada um trancou a porta de seu humilde lar, convencido de que o vizinho precisava urgentemente de ajuda profissional.

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