A vida após um transplante pode revelar conquistas que antes pareciam inatingíveis. Para dois capixabas, essa chance de recomeçar adquiriu um significado profundo nas piscinas e nas pistas de atletismo. Richard Brandão e Luiz Fernando Brumana representaram o Espírito Santo nos primeiros Jogos Pan-Americanos de Transplantados, ocorridos no Uruguai, e voltaram para casa com resultados impressionantes.
Richard conquistou o primeiro lugar em quatro das cinco provas que participou, enquanto Luiz, professor e jornalista de Marataízes, no Litoral Sul do Estado, venceu todas as seis competições de natação, garantindo seis medalhas de ouro.
Mais do que os troféus, as histórias dos atletas demonstram como um transplante pode marcar o início de uma nova fase, permitindo a retomada de sonhos e projetos interrompidos.
Do diagnóstico inesperado à realização de um sonho
Richard Brandão já percorreu um longo caminho até chegar à competitividade internacional. Morador de Guarapari, ele recebeu o diagnóstico de necessidade de um transplante renal há cerca de dez anos, após uma crise durante uma partida de futebol.
Após uma forte pressão arterial que resultou em perda de visão, ele foi levado ao hospital e foi informado de que seus rins estavam falhando. Na época, estava no último ano do ensino médio e praticava variados esportes, mas a notícia alterou sua rotina drasticamente.
Richard enfrentou oito anos de hemodiálise, realizando sessões três vezes por semana, que duravam cerca de quatro horas cada. Inicialmente, ele teve dificuldades para lidar com as limitações causadas pela doença e se isolou.
A corrida surgiu como uma forma de enfrentar essa realidade. Em março de 2024, ele recebeu um transplante renal no Hospital Meridional Cariacica e, gradualmente, reatou sua ligação com o esporte.
A sua recuperação atraiu a atenção da Liga de Atletas Transplantados do Brasil, que o convidou a integrar a equipe brasileira nos Jogos Pan-Americanos. O que antes parecia impossível tornou-se real: Richard passou a representar o país em uma competição internacional, conquistando o primeiro lugar em quatro provas das cinco que disputou.
Ele competiu nas modalidades de atletismo: 100, 200 e 400 metros rasos, além do salto em distância. Richard expressou a emoção que sentiu ao representar o Brasil e ao trocar experiências com atletas transplantados de diferentes países.
“Mais do que competir, tive a oportunidade de mostrar que o transplante não representa o fim dos sonhos, mas sim o início de novas possibilidades”, compartilhou.
Com suas conquistas, Richard agora visa um novo objetivo: ele está classificado para o Mundial de Atletismo para Transplantados, o World Transplant Games, agendado para ocorrer entre 1º e 8 de agosto de 2027, na Bélgica.
Para viabilizar sua participação na competição internacional, o atleta está em busca de apoiadores que possam contribuir com os custos da viagem. Ele deseja levar todos que colaborarem para concretizar esse novo sonho. “Brasil no peito, fé no coração e orgulho de ser transplantado!”, exclamou.
Seis ouros e uma história de gratidão
A história de Luiz Fernando Brumana, também do Litoral Sul capixaba, é outra narrativa de superação. O professor e jornalista de Marataízes fez parte da delegação brasileira e teve um desempenho notável na competição.
Transplantado renal, Luiz recebeu um rim de seu irmão, João Vitor, em 2017. A doação foi possível devido à compatibilidade total entre os dois. Antes da cirurgia, ele passou por hemodiálise por um ano e dez meses, após ser diagnosticado com insuficiência renal.
A doação do irmão foi uma luz de esperança, já que outros familiares, como irmãos e primos, também se ofereceram para a doação. Com seu novo rim, Luiz iniciou uma nova fase em sua vida, voltando às competições com grande estilo.
No Uruguai, ele conquistou seis medalhas de ouro em todas as provas de natação que disputou: 50, 100 e 200 metros livres; 50 e 100 metros peito; e 50 metros costas.
Hoje, Luiz é parte da Liga de Atletas Transplantados do Brasil e dedica-se ao esporte. Porém, em um relato após a competição, deixou claro que suas medalhas não foram sua principal vitória.
Ele ressaltou que o mais valioso durante os dias em Punta del Este foram os encontros com atletas de diferentes nacionalidades, as amizades formadas e o apoio mútuo entre os integrantes das delegações. Para Luiz, a experiência foi muito além do pódio.
Esporte para celebrar a vida
Os Jogos Pan-Americanos de Transplantados possuem um propósito que vai além do esporte. Esse evento reúne indivíduos que passaram por transplantes e busca destacar a importância da doação de órgãos, demonstrando que receber um órgão pode abrir portas para retomar projetos e viver novas experiências.
A prática esportiva é igualmente crucial e requer acompanhamento especial. Especialistas afirmam que a atividade física traz benefícios significativos para os transplantes, podendo aumentar a longevidade do paciente e do órgão transplantado.
Assim, a volta aos exercícios deve respeitar o período de recuperação e as condições individuais de cada pessoa. Para aqueles que aspiram competir, a supervisão médica e a orientação profissional são de suma importância.
As trajetórias de Richard e Luiz mostram que um transplante não precisa significar o encerramento de uma história esportiva. Pelo contrário, para ambos, foi o início de um novo capítulo, agora repleto de medalhas, amizades e a oportunidade de inspirar outras pessoas.



