No mês de maio, a Anik African Store abriu suas portas na rua principal da cidade escocesa de Greenock, trazendo um pouco da Nigéria para o litoral da Escócia. O estabelecimento oferece diversos produtos, incluindo inhame, bananas, bagres e quiabo. Esta loja não é a única de comida africana na área, evidenciando a transformação demográfica que a cidade vem experimentando.
Moradores relatam que, há cinco anos, era difícil encontrar pessoas negras em Greenock. Atualmente, a cidade recebeu centenas de imigrantes africanos e refugiados. Para estimular essa migração, a prefeitura local implementou um programa visando atrair ainda mais habitantes, na tentativa de reverter a queda populacional. Christianah Omilana, a proprietária da Anik, chegou ao Reino Unido em 2021 e elogia a hospitalidade dos escoceses.
Entretanto, a falta de emprego tem sido um fator crítico para o declínio da população não apenas em Greenock, mas em toda a região de Inverclyde. Desde 1981, a população de Inverclyde diminuiu em 22 mil indivíduos, e as projeções indicam uma redução de mais 16% nas duas próximas décadas. O governo local tem como prioridade encontrar soluções para reter os moradores e atrair novos residentes.
Segundo Sunday, um cliente da loja, Greenock é uma cidade acolhedora. Ele se mudaram de Devon, na Inglaterra, para trabalhar em um hospital de Glasgow e se reunir com sua esposa, que atua no Inverclyde Royal Hospital. Sunday acredita que a situação mudará se mais postos de trabalho forem criados na região, tornando-a atrativa para imigrantes africanos.
A maioria dos africanos que reside em Greenock trabalha ou estuda em Glasgow ou Paisley, devido ao custo acessível da habitação. Muitos chegaram com vistos de trabalho qualificado e têm sido essenciais no setor de saúde. O governo local busca não apenas incentivar esses imigrantes a se estabelecerem, mas também atrair refugiados em situação regular.
Entretanto, a ausência de empregos configura-se como o maior desafio enfrentado por Greenock. Tiffany, mãe de um filho pequeno, descreve a cidade como “uma cidade-fantasma”, com escassas opções de entretenimento e comércio. Após se mudar para trabalhar e voltar para criar seu filho, ela considera a possibilidade de ir para Paisley em busca de mais oportunidades.
Historicamente, Greenock foi um importante centro de refino de açúcar no século 19, conhecido como “Sugarópolis”. Com o fechamento de fábricas, como a da IBM em 2016, a perda de empregos se intensificou. Um estaleiro local anunciou recentemente uma redução de 25% em sua força de trabalho, e um fundo foi criado para ajudar o clube de futebol local a evitar a falência.
A situação de Greenock preocupa, levando o primeiro-ministro da Escócia a visitar a área para entender os problemas locais de perto. Embora muitos imigrantes africanos ajudem nas áreas de saúde e assistência social, é complicada a situação de emprego para os nativos e refugiados. Muriel, uma residente idosa, aponta que a falta de trabalho leva os moradores a deixar a cidade.
Os aposentados estão cientes da estratégia de repovoamento do governo, mas questionam sua viabilidade. Embora aceitem a chegada de imigrantes, há preocupações sobre a sustentabilidade desse fluxo, principalmente sem criação de empregos adequados.
Jonathan Fleming, pastor da igreja Lyle Kirk, que há cinco anos acompanha a queda populacional, afirma que sua congregação realiza atualmente mais funerais do que casamentos. Ele tem testemunhado a luta de refugiados, como iranianos, que desejam trabalhar e contribuir, mas encontram dificuldades.
Desde 2023, o número de imigrantes chegando a Inverclyde aumentou, alcançando 750 por ano. Além de africanos, a região recebe refugiados de Ucrânia e Afeganistão, que trazem histórias inspiradoras. Para apoiar essa nova população, o governo local está oferecendo aulas de inglês e facilita o acesso a empregos qualificados.
Mo Almalarashid, um refugiado sírio que chegou a Greenock em 2018, encontrou apoio na comunidade e, após melhorias em seu inglês, hoje trabalha como instrutor em uma academia. No entanto, a tensão social é real, como evidenciado por incidentes de violência e protestos contra o acolhimento de solicitantes de asilo.
Com a previsão de que outras áreas do Reino Unido enfrentarão desafios similares de diminuição populacional, Stephen McCabe, líder do conselho de Inverclyde, acredita que o plano de repovoamento começa a mostrar resultados, refletindo em uma estabilização da população nos últimos dois anos, principalmente devido à imigração.
O foco no repovoamento abrange projetos habitacionais, modernização de escolas e, crucialmente, a criação de novos empregos. McCabe vislumbra possibilidades nos setores marítimo, de energias renováveis e defesa, embora a necessidade de suporte dos governos seja evidente.
Enquanto muitos imigrantes enfrentam dificuldades para encontrar trabalho devido a restrições legais, McCabe afirma que os que podem trabalhar são essenciais para o sistema de saúde, do qual dependem os moradores. Ele acredita que imigrantes e refugiados trarão vitalidade e crescimento para a região.
Além dos desafios demográficos, Greenock vê uma população envelhecendo, o que aumenta a demanda por assistência médica. A falta de crianças resultou no fechamento de creches, e a pobreza crescente pressiona os serviços públicos. Esse cenário leva a um aumento no imposto local, que subiu quase 8% neste ano.
Por outro lado, a 15 minutos de carro, a cidade de Gourock, que também enfrentava dificuldades, se transformou em uma localidade próspera, impulsionada por investimentos locais. Matthew Quinn, um jovem morador, sugere que outras áreas de Inverclyde devem seguir esse exemplo, focando em melhorar os serviços públicos para um ambiente mais atraente.
Quinn argumenta que a localização próxima a Glasgow deveria ser aproveitada e que, ao invés de depender da criação de empregos na própria região, o governo local deveria concentrar esforços em criar condições agradáveis para viver.
Derek Mitchell, um morador otimista, planeja transformar uma antiga refinaria de açúcar em um centro de ensino para jovens, enfatizando a importância de capacitar a nova geração. O investimento previsto é de 5 milhões de libras, e Mitchell busca apoio de parcerias locais.
Diante da crescente preocupação com a imigração no Reino Unido, a abordagem de Inverclyde de acolher refugiados e imigrantes se revela inovadora. A crise populacional é séria, e a solução adotada pelo governo local representa uma tentativa surpreendente de enfrentar os desafios de amanhã. Muitas comunidades também enfrentarão questões semelhantes e podem se inspirar nas lições de Greenock.



