O empresário Fernando Cinelli, que já foi presidente da Apex Partners, é acusado de apresentar aos investidores e ao conselho da companhia documentos que mostravam a presença de grandes firmas internacionais de auditoria e consultoria em serviços que afirmam não ter realizado. De acordo com informações, uma apresentação para captação de R$ 100 milhões incluía o logotipo da KPMG, afirmando que uma auditoria independente estava “em execução”. Contudo, a KPMG negou ter auditado os dados da Apex. Essa apresentação ocorreu meses antes da identificação de sérios problemas financeiros, que resultaram na revelação de um passivo próximo de R$ 1 bilhão.
Os documentos indicavam uma empresa em grande crescimento, com a previsão de atingir R$ 74 bilhões em ativos até 2032, o que equivale a um aumento de quase quatro vezes em relação aos valores da época. A Apex também alega ter crescido 44% ao ano até 2025, apresentando um modelo de negócios considerado “validado após dez aquisições”.
Antes da crise, a avaliação da companhia chegou a R$ 1 bilhão. Além disso, as apresentações destacavam uma administração robusta, com 25 comitês em funcionamento, e um modelo de governança que prometia “crescimento com controle e alinhamento de riscos”. A reportagem menciona que o cronograma de captação indicava a avaliação da Apex pela PwC em abril; no entanto, a PwC esclareceu que não realizou esse serviço, enfatizando que sua atuação na área financeira não envolvia auditorias ou validações independentes dos dados apresentados.
A consultoria Falconi foi mencionada nos documentos, mas esclareceu que seus serviços eram restritos à gestão de um sistema de software e ao monitoramento de indicadores já produzidos pela Apex.
Em resposta às acusações, a nova diretoria da Apex responsabilizou Fernando Cinelli por não informar adequadamente os órgãos de governança sobre a real condição financeira da empresa. A companhia alegou que o ex-presidente ocultou a deterioração das finanças e o risco de insolvência, o que provocou uma investigação interna com início em julho.
Em 6 de agosto, Cinelli e o ex-diretor financeiro, Eduardo Siqueira, foram afastados após a descoberta de “inconsistências contábeis, gerenciais e financeiras”. A Apex indicou que as investigações revelaram indícios de gestão imprudente, transferências de fundos para contas pessoais de Cinelli e desorganização nas práticas administrativas e contábeis. A administração da Apex também destacou a concentração de poderes nas mãos do ex-presidente, citando suas múltiplas funções que incluíam a presidência do Conselho, direções executivas e controle sobre a aprovação das contas bancárias.
Como parte das ações para esclarecer a situação, a Apex informou que adotou medidas legais e administrativas, reafirmando seu compromisso com a transparência e responsabilidade. O pedido de recuperação judicial foi parte das ações para reestruturar a empresa e resguardar os interesses de investidores e credores.
Fernando Cinelli, ao ser entrevistado, defendeu sua posição, afirmando que a inclusão da KPMG nas apresentações não significava que haviam sido contratados para auditar a Apex. Ele argumentou que a decisão sobre a auditoria ainda estava em análise e que as discussões com a PwC envolviam apenas aspectos estratégicos, não a verificação dos dados financeiros.
Cinelli também afirmou que os materiais de captação foram elaborados pela administração com assistência da PwC e a participação de diversos setores da empresa. Ele acrescentou que o conteúdo apresentado ao conselho recebeu aprovação em reunião antes de ser levado à assembleia.
No entanto, as explicações fornecidas pelas consultorias revelam discrepâncias entre os serviços que foram apresentados e aqueles que efetivamente foram prestados. A PwC confirmou que não verificou de maneira independente as informações fornecidas pela Apex, a Falconi disse que teve acesso aos dados somente após a sua elaboração pela própria companhia, e a KPMG reiterou que não realizou a auditoria mencionada nos documentos.
Quando questionada sobre a possibilidade de fraude na utilização de nomes de consultorias, a KPMG não se manifestou. A reportagem não confirma a existência de fraude no uso das marcas das consultorias.
Essas revelações trazem um novo episódio à crise da Apex Partners, que solicitou recuperação judicial em setembro após descobrir o passivo de bilhões. O caso levanta questões sobre a veracidade das informações apresentadas a investidores e membros do conselho durante a gestão de Cinelli, em um contexto onde os documentos indicavam um crescimento acelerado enquanto a saúde financeira da empresa se deteriorava. Agora, a principal dúvida é sobre quem tinha acesso aos verdadeiros números da companhia, quando os problemas financeiros foram descobertos e quais informações respaldaram as decisões de investimento e expansão do grupo.



