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Cuba: Mercados Locais Aceleram o Fim da Caderneta – 06/10/2026 – Mundo

Sessenta anos após sua introdução, a caderneta que permitiu a milhões de cubanos adquirir produtos subsidiados está prestes a desaparecer. Mercados de bairro estão gradativamente substituindo as mercearias que antes utilizavam essa caderneta, que se tornou um símbolo de igualdade na revolução de 1959.

“Estamos vivenciando uma mudança radical no nosso modo de vida”, afirma Paula Sonia Santiago, de 64 anos, ao observar um novo mercado de bairro em Havana.

Esses estabelecimentos estão surgindo no contexto da reforma econômica implementada pela atual administração comunista, que enfrenta pressões externas, especialmente do governo dos Estados Unidos.

Cuba, submetida a um embargo e com escassez de petróleo, avança em direção a um modelo econômico mais voltado ao mercado após décadas sob um sistema estatista. Sem qualquer comunicação oficial, os cubanos presenciam o declínio da rede de mercearias, onde podiam comprar alimentos básicos utilizando apenas a caderneta, pagando um preço significativamente inferior ao mercado.

“O cubano se sente angustiado, pois não estamos habituados a viver sem esse sistema”, lamenta Santiago.

Para muitos, essa transformação significa a perda de acesso seguro e a preços acessíveis a alimentos em uma ilha onde 66% da população de 9,4 milhões vive em situação de pobreza, conforme um estudo recente.

O sistema de mercearias e a caderneta foram criados por Fidel Castro em 1963, em resposta à escassez de alimentos que o regime atribuiu ao embargo dos Estados Unidos. Durante melhores épocas, qualquer cubano, independentemente de sua renda, podia garantir sua alimentação básica por meio da cesta subsidiada. Esse sistema custava anualmente cerca de US$ 1 bilhão ao governo cubano.

América Guillén, de 82 anos, recorda que, mesmo nos períodos mais desafiadores, essa caderneta assegurava “um mínimo” de alimentos. Agora, a idosa, que recebe uma aposentadoria mínima, afirma que “os mais pobres estão enfrentando muitas dificuldades”.

O sistema de subsídios começou a enfraquecer na década de 1990, quando Cuba passou a enfrentar uma grave crise econômica após o colapso do bloco soviético. Em 2008, o então líder Raúl Castro iniciou uma política de redução de “subsídios e gratuidades indevidos”, que levou à retirada gradual de certos produtos da caderneta.

No entanto, com a presidência de Miguel Díaz-Canel, iniciada em 2018, a cesta subsidiada foi reduzida a um nível mínimo, devido às rigorosas sanções econômicas impostas pelos EUA.

“Estamos sem receber nada”, comenta Guillén a respeito da atual situação. Nos últimos meses, as mercearias têm disponibilizado apenas alguns quilos de arroz e açúcar, levando os cubanos a comprar grande parte de seus alimentos a preços exorbitantes em supermercados que aceitam dólares ou nas pequenas lojas privadas autorizadas pelo governo em 2021.

A administração de Díaz-Canel tem afirmado que sua prioridade é subsidiar apenas as “pessoas vulneráveis”, ao invés de fornecer subsídios de forma universal. Até agora, 24 “mercados de bairro” foram criados, oferecendo cerca de 20 produtos básicos a preços entre 10% e 15% abaixo dos praticados pelo setor privado. Entretanto, clientes relatam com descontentamento que os valores cobrados nesses novos mercados não são muito inferiores aos do comércio privado.

Ivón de la Riva, vendedora de café de 64 anos, expressa sua insatisfação: “Se este é nosso novo modelo de mercearia, os preços deveriam ser mais acessíveis, considerando o poder aquisitivo da maioria”.

Rafael García, de 75 anos, resume o sentimento geral após comprar ovos em um desses mercados: “Não é que seja mais barato, é que está menos caro do que em outros lugares”.

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