Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um inovador curativo líquido que forma uma película protetora sobre feridas em apenas 45 segundos. Este novo material elimina a necessidade de gazes e ataduras, apresentando uma redução de cerca de 50% no tempo de cicatrização em testes realizados anteriormente.
A tecnologia foi criada na Faculdade de Engenharia Química e licenciada para a Dermbio Biotech, uma startup acadêmica da Unicamp. Atualmente, o produto ainda não está disponível para o público e precisa passar por estudos adicionais sobre segurança e eficácia em humanos, além de atender às exigências regulatórias da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
O curativo tem como proposta proteger as feridas sem a necessidade de trocas periódicas, evitando que curativos tradicionais adiram ao tecido em cicatrização, o que pode causar desconforto durante a remoção. O produto é aplicado diretamente sobre a lesão, similar a um spray, formando uma membrana transparente e flexível que protege a área e apoia o crescimento celular necessário para a regeneração dos tecidos.
A tecnologia usa um polímero conhecido como PLA (poliácido lático), que é produzido a partir do ácido lático. Embora esse material já seja utilizado em aplicações médicas, como fios de sutura, sua produção enfrenta desafios, como dependência de importações com altos custos, conforme afirmou uma das pesquisadoras envolvidas no projeto, doutora em engenharia química pela Unicamp.
O foco dos cientistas era criar um processo de produção do polímero no Brasil. Porém, surgiu uma dificuldade adicional: os solventes geralmente utilizados no processamento do material são tóxicos e impedem seu uso seguro em feridas. Para superar isso, a equipe desenvolveu uma formulação que utiliza solventes não tóxicos, permitindo que o polímero seja transformado em um líquido apropriado para aplicação, resultando em uma segunda patente relacionada.
A membrana gerada possui uma estrutura tridimensional de fibras que facilita a adesão das células, sendo absorvida gradualmente pelo organismo durante a cicatrização. O professor responsável pela pesquisa destaca que a abordagem visa potencializar o processo natural de recuperação do corpo, sem substituí-lo.
Esta película é resistente à água, mas pode ser removida com fricção e água e sabão. Sua flexibilidade é uma vantagem em áreas do corpo que apresentam movimento constante, como joelhos, cotovelos e dedos, ao contrário dos curativos tradicionais, que podem causar atrito ou descolamento.
Os pesquisadores acreditam que o novo material, ao eliminar a necessidade de trocas frequentes, poderá minimizar o trauma nas lesões, reduzindo também a geração de resíduos biológicos e o risco de contaminação durante o manuseio, embora reitere que os cuidados tradicionais na tratativa de feridas devem ser mantidos.
Até agora, os ensaios pré-clínicos, realizados com animais, mostram aproximadamente 50% menos tempo de cicatrização em comparação aos curativos convencionais. Além disso, não apenas o tempo de fechamento da lesão foi afetado, mas também a recuperação do tecido foi considerada satisfatória.
Os resultados ainda não foram publicados em fóruns científicos, mas a equipe já submeteu o estudo a uma publicação internacional. Eles estão concluindo uma nova fase de testes pré-clínicos e pretendem avançar nesse trabalho até o final de 2026 antes de iniciar os estudos clínicos em humanos.
O polímero utilizado, apesar de já ter aplicações conhecidas, ainda precisa ser avaliado para a formulação e desempenho do curativo em diferentes tipos de lesões. Os pesquisadores vislumbram a possibilidade de usar o curativo em diversas feridas, incluindo escaras, queimaduras e lesões decorrentes de acidentes, com a condição de comprovar sua segurança e eficácia.
A tecnologia também pode ter aplicação na medicina veterinária, visto que a película resistente à água poderia evitar que os animais removam a proteção ou piorem uma ferida ao lambê-la.
A empresa Dermbio Biotech está empenhada em transformar a pesquisa em um produto comercial. Eles desenvolveram um aplicador específico e estruturaram as etapas de produção no Brasil para garantir custos competitivos. Os objetivos são clareados pela equipe: transformar ciência em tecnologia, essa em produto, e o produto em bem-estar, proporcionando benefícios econômicos ao país.
Os pesquisadores também estão considerando uma versão em aerossol do curativo para venda em farmácias, embora essa formulação possa ter desempenho inferior, mas ainda assim oferecer vantagens no tratamento de lesões.
O esforço de desenvolvimento da tecnologia foi apoiado financeiramente por uma fundação estatal e recebeu suporte para o processo de licenciamento.



