Jonathan hesitava em deixar Israel. Quando sua esposa sugeriu pela primeira vez a ideia, ele foi um dos que mostraram resistência. No entanto, com a guerra na faixa de Gaza se prolongando, e o estresse do conflito se acumulando devido a pressões econômicas e tensões sociais, ele começou a entender que a mudança era necessária.
Certa noite, ao voltar para o apartamento em Tel Aviv, encontrou o filho de um vizinho, que lhe disse estar ansioso para se encontrar com Jonathan no abrigo do prédio, onde os moradores se protegiam contra mísseis. Essa conversa foi decisiva para ele. “Este menino é o futuro do país, e isso é tudo o que ele conhece”, recorda Jonathan. Para ele, a situação em Israel se tornara insustentável, marcada por um ciclo de luta e fuga.
Assim, em 2024, ele, um profissional do mercado imobiliário na casa dos 30 anos, que optou por não ter seu sobrenome divulgado, decidiu mudar com sua família para os Estados Unidos. Essa decisão fez parte de um êxodo de cerca de 150 mil israelenses que deixaram o país nos últimos três anos.
O movimento de saída foi impulsionado por um período de crise sem precedentes em Israel. No início de 2023, o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu implementou uma reforma controversa no Judiciário, que desencadeou a maior crise interna do país nos quase 80 anos de sua história. Em 7 de outubro, o ataque do Hamas levou Israel a uma guerra que se espalhou para um conflito regional de longa duração, envolvendo o Irã e diversos grupos aliados, de Líbano a Iémen.
Embora a taxa de emigração não seja notável em padrões globais, a magnitude desse êxodo é incomum para Israel e já trouxe impactos significativos. Junto a uma queda na imigração, o saldo migratório de Israel teve resultados negativos tanto em 2023 quanto em 2024 — um fenômeno que ocorreu apenas em três ocasiões no século passado. Especialistas preveem que os números de 2023 ainda não disponíveis também sejam negativos.
Estudos, incluindo um recente da autoridade tributária de Israel, indicam que uma proporção crescente dos emigrantes é composta por pessoas de alta renda. Isso gerou preocupações sobre uma possível fuga de cérebros, que, se prolongada, poderá causar danos significativos à economia israelense, cuja estrutura depende fortemente de tecnologia, das finanças públicas e até mesmo das Forças Armadas.
Sergio DellaPergola, professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém, destacou que estamos diante de um saldo negativo contínuo em anos subsequentes pela primeira vez em um século, referindo-se a episódios isolados na década de 1920 antes da fundação de Israel em 1948, e novamente nas décadas de 1950 e 1980. Ele reforça a excepcionalidade deste cenário.
A ideia de Israel como um país de imigração é fundamental para sua identidade contemporânea, já que o estado foi criado sob a sombra do Holocausto, prometendo abrigo aos judeus de todo o mundo. De 1948 a 1960, a imigração representou 65% do crescimento populacional, percentual que diminuiu ao longo dos anos, mas que ainda se aproximava de 20% nas duas décadas antes da pandemia.
Historicamente, havia um estigma associado à emigração, onde aqueles que partiam eram rotulados de formas depreciativas. Por décadas, o conceito de “aliá”, ou ascensão, contrastava com “yordim”, ou aqueles que descem. Alex Weinreb, diretor de pesquisa do Taub Center, disse que emigrar implicava vergonha, levando os israelenses a se sentirem traidores do movimento pelo renascimento judaico.
Embora esse estigma tenha diminuído, o tema ainda é sensível. Com a ascensão do governo de extrema direita de Netanyahu no início de 2023 e a tentativa de reformar o Judiciário, o país testemunhou protestos massivos. Após o ataque do Hamas, a emigração acelerou, com 14 mil israelenses deixando o país apenas em outubro daquele ano.
A migração tem múltiplas causas, mas analistas concordam que a polarização política e anos de conflito militar contínuo têm influenciado as recentes saídas. As mudanças trazidas pela nova coalizão de governo geraram ondas de descontentamento que culminaram nas atuais percepções de insegurança.
Lilach Lev Ari, especialista em imigração, notou que muitos israelenses que se mudaram nos últimos anos expressaram uma preocupação profunda com o estado político e social de Israel, principalmente após as reformas judiciais. “Agora podemos adicionar a atmosfera sociopolítica a essas razões”, afirma.
Contudo, existe uma parte da população que considera emigrar inconcebível. Benjamin Blatt, de Jerusalém, afirma que, apesar da guerra, seus vínculos pessoais no país são primordiais. No entanto, entre os israelenses seculares e de orientação mais à esquerda, a inquietação com os rumos do país é significativa.
Com eleições importantes se aproximando, muitos veem esse evento como crucial para o futuro de Israel. DellaPergola sugere que uma evolução positiva na liderança poderia levar a um aumento no número de retorno dos que emigraram, mas destaca que a falta de mudanças poderia ampliar a insatisfação entre os que permanecem.
Adi, uma israelense que se mudou para a Espanha no início de 2024, alegou estar preocupada com a influência crescente da religião e do nacionalismo nas instituições do país, especialmente em relação às Forças Armadas e ao sistema educacional. Ela se sentiu forçada a partir para garantir uma perspectiva melhor para seus filhos. “Decidi partir com pesar, esperando que Israel se recupere”, disse.
Considerações financeiras também desempenham um papel relevante na decisão de deixar o país. O custo de vida elevado e a dificuldade em encontrar moradia dentro de condições razoáveis foram motivos que influenciaram Jonathan e sua esposa. Eles encontraram mais facilidade em adquirir uma casa nos Estados Unidos do que em Israel.
No primeiro semestre de 2025, a emigração caiu 20% em comparação ao ano anterior, mas é esperado que o saldo de saídas continue superando as entradas. Especialistas alertam que, caso essa tendência permaneça, poderá acentuar as pressões demográficas sobre a economia, uma vez que o número de judeus ultraortodoxos que não ingressam no mercado de trabalho é crescente.
A autoridade tributária indicou que a taxa de saída de profissionais altamente qualificados foi quase o dobro dos números de 2019. Caso essa situação se prolongue, eles projetam que a perda anual de receita tributária possa alcançar US$ 3,5 bilhões em cinco anos.
Com suas preocupações sobre a estabilidade do país, Itai Ater, economista, alerta que a dependência de Israel em seu capital humano torna a emigração, particularmente de setores qualificados, uma ameaça real. Além disso, essa dinâmica poderia sobrecarregar as Forças Armadas e dificultar o financiamento de gastos com defesa.
Enquanto isso, o governo começou a implementar medidas para incentivar o retorno de trabalhadores qualificados, incluindo isenções fiscais e mecanismos para compensar impostos pagos no exterior. Dror Bin, diretor-executivo da Autoridade de Inovação de Israel, acredita que a mudança de políticas pode começar a mostrar resultados em breve.
As autoridades esperam que novas condições geopolíticas possam atrair retornos, especialmente se a segurança na região se mantiver estável. Jonathan menciona que a mudança para os Estados Unidos não foi isenta de dificuldades, mas a sensação de segurança e a liberdade de viver sem a necessidade de abrigos fez uma grande diferença em sua vida.
A possibilidade de retorno ainda não está fora de questão para muitos que deixaram Israel, mas, no momento, muitos acreditam que a oportunidade de buscar uma vida melhor em outros lugares é uma opção mais viável.



