Mais da metade da população brasileira convive com alguma doença crônica. No entanto, isso não significa que o tratamento deve ser o mesmo ao longo da vida. Para 1,6 milhão de capixabas que lidam com essas condições, a ciência oferece novas alternativas: medicamentos que preservam órgãos, terapias para manejar doenças anteriormente difíceis e pesquisas que indicam abordagens cada vez mais personalizadas.
No contexto da hipertensão arterial, uma das doenças crônicas mais comuns, a pesquisa busca uma alternativa através de uma injeção que auxilia no controle da pressão. Em um estudo realizado em 2025, a aplicação subcutânea de 600 mg de zilebesiran mostrou eficácia ao reduzir a pressão arterial em indivíduos cuja situação não estava bem controlada com medicamentos orais. A injeção foi utilizada em conjunto com os medicamentos convencionais utilizados para o tratamento.
O zilebesiran ainda está em fase de pesquisa, sendo avaliado em um estudo maior para determinar se realmente diminui as complicações cardiovasculares.
No tratamento do colesterol ruim, a inclisirana, que utiliza tecnologia de RNA interferente, já é uma opção disponível no Brasil. Ela reduz a produção de uma proteína chamada PCSK9, facilitando a remoção de LDL do sangue pelo fígado. O tratamento consiste em duas aplicações anuais durante a fase de manutenção.
Para a obesidade, a retratutida, um agonista triplo, está sendo aguardada. Seus estudos indicam que quase metade dos pacientes que receberam o medicamento conseguiu perder mais de 30% do peso.
Para aqueles que enfrentam a depressão resistente ao tratamento, além dos antidepressivos habituais, existe a escetamina em spray nasal, aprovada pela Anvisa em 2020. Este medicamento é utilizado em combinação com antidepressivos orais e deve ser administrado sob supervisão clínica.
É importante destacar que nenhuma dessas inovações pode substituir a psicoterapia e a busca por uma melhor qualidade de vida.
A medicina de precisão está revolucionando o tratamento de doenças, utilizando exames genéticos, biomarcadores e dados clínicos para identificar as terapias mais adequadas para cada paciente, tornando o tratamento mais personalizado. Essa abordagem já avança na oncologia e promete expandir as opções de cuidados para aqueles que lidam com doenças crônicas.
Estamos à beira de uma nova era médica, onde o objetivo não é apenas controlar, mas compreender as causas moleculares das doenças, antecipar complicações e desenvolver tratamentos mais eficazes e duradouros. As tecnologias de RNA, anticorpos monoclonais de longa duração e plataformas de terapia gênica estão ampliando as opções de tratamento, possibilitando intervalos maiores entre as administrações.
No futuro, poderemos ter medicamentos que necessitem de aplicação semestral, anual ou até mesmo intervenções únicas que perdurem por longos períodos, caso específico da doença e da tecnologia utilizada. Isso representaria uma mudança significativa para aqueles que hoje precisam tomar múltiplos comprimidos diariamente.
Débora Dummer Meira alerta, contudo, que a frequência do tratamento dependerá dos mecanismos da doença e da segurança de cada nova tecnologia, enfatizando que as doenças crônicas têm múltiplas origens e nem sempre podem ser atribuídas apenas a hábitos de vida.
Diversos fatores, como genética, metabolismo, imunologia e condições fisiológicas também desempenham papéis importantes nas doenças crônicas, que podem persistir mesmo em pessoas com hábitos saudáveis.
Daniel Gomes, professor de Imunologia, aponta que a imunidade inata, a primeira linha de defesa do organismo, pode desenvolver uma espécie de memória, que protege contra infecções, mas também mantém a inflamação em doenças crônicas. Além disso, os órgãos podem reter memória do estado da doença, o que fica evidente nas recaídas.
Recentemente, a ciência está desvendando novas formas de alterar a resposta imunológica para combater doenças crônicas. Gomes destaca que a pesquisa sobre imunossenescência, que estuda como o envelhecimento impacta as células imunológicas, revela que algumas perdem capacidade de resposta enquanto outras produzem substâncias inflamatórias constantemente, o que aumenta a vulnerabilidade a infecções e contribui para doenças crônicas.
Outra linha de investigação busca eliminar as células senescentes, que não se dividem mais, mas permanecem no corpo, liberando substâncias inflamatórias. Estudos iniciais com medicamentos senolíticos mostraram resultados promissores, embora ainda não comprovem a prevenção de doenças.
As doenças crônicas não transmissíveis representam um grave problema de saúde pública, tanto no Brasil quanto no mundo, resultando em mortes prematuras, redução na qualidade de vida, incapacidades e altos custos para os sistemas de saúde. Essas doenças são oriundas de uma combinação de fatores de risco modificáveis, condições metabólicas, determinantes genéticos e sociais.
De acordo com dados de 2019, 52% dos adultos brasileiros relataram um diagnóstico de pelo menos uma doença crônica. No Espírito Santo, isso representa aproximadamente 1,6 milhão de pessoas, com as condições mais citadas sendo hipertensão arterial (23,9%), problemas crônicos de coluna (21,6%), colesterol elevado (14,6%) e depressão (10,2%).
Em relação ao tratamento do diabetes tipo 2, destacam-se os inibidores de SGLT2, que promovem a eliminação da glicose pela urina e demonstram também a redução de complicações cardiovasculares. Os agonistas de GLP-1, assim como novos medicamentos em estudo, têm mostrado bons resultados em relação ao controle da doença e promoção da perda de peso.
No manejo da hipertensão, novas pesquisas apresentam alternativas como o zilebesiran, que ajudou a reduzir a pressão em pacientes não controlados, e o baxdrostat, que diminui a produção de alosterona, um hormônio que causa retenção de líquidos.
Para o colesterol elevado, a inclisirana reduz a produção de PCSK9 e já está disponível, enquanto novos medicamentos, como o ácido bempedoico, promovem alternativas para pacientes que não toleram estatinas.
Além disso, novos tratamentos em depressão, como a escetamina em spray nasal e a estimulação magnética transcraniana, estão em evolução, assim como opções inovadoras no tratamento de câncer, crenças que impulsionam a melhora das terapias direcionadas.
Na asma e na DPOC, novas abordagens estão em desenvolvimento para melhorar o gerenciamento das condições, enquanto o tratamento de problemas crônicos de coluna integra educação, reabilitação e técnicas como ablação quando necessário.
O avanço na terapia para doenças renais crônicas com novos medicamentos, como os inibidores de SGLT2, também mostra potencial em retardar a perda da função renal.
Este cenário revela uma nova era para a medicina e destaca a importância das pesquisas e inovações para o tratamento de doenças crônicas, com expectativas crescentes quanto à personalização e eficácia das abordagens terapêuticas.



