Comunidade de Jucutuquara denuncia descaracterização da Igreja Matriz São Sebastião ao MPES
Moradores e frequentadores da Igreja Matriz São Sebastião, localizada em Jucutuquara, Vitória, solicitaram a intervenção do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) para que as alterações em curso na reforma da igreja, iniciada em março, sejam suspensas. A comunidade argumenta que as mudanças estão transformando um espaço que foi edificado coletivamente ao longo das gerações e que detém significativas memórias sociais, religiosas e culturais do bairro.

A mobilização é organizada pela Comissão de Preservação da Matriz São Sebastião, que inclui moradores, descendentes de antigos frequentadores e membros da comunidade paroquial. Em um documento enviado à Cúria Metropolitana de Vitória, o grupo solicita a paralisação das obras que afetam a estrutura histórica da igreja e a criação de um espaço de mediação que envolva a Arquidiocese de Vitória, especialistas em patrimônio e representantes locais.
Os moradores destacam que a Igreja Matriz São Sebastião foi erguida na década de 1930, fruto do esforço coletivo dos moradores das comunidades de Jucutuquara, Fradinhos e vizinhança. De acordo com a comissão, a construção foi resultado de trabalho comunitário, com arrecadações, campanhas, festas e rifas promovidas pelos próprios residentes, que contribuíram com recursos e materiais até a conclusão do templo.
A comissão ressalta que a igreja não é apenas um espaço de culto, mas um local que reflete as relações sociais e a história das famílias que ajudaram a edificar a comunidade ao redor. “A maioria dos frequentadores atuais é descendente direta dos fundadores, o que conecta a identidade da comunidade à história do templo”, afirma o documento enviado à Arquidiocese.
Os moradores relatam que a reforma prevista para o telhado, que apresentava problemas estruturais e infiltrações, foi aprovada inicialmente pelo conselho paroquial. No entanto, as intervenções avançaram para alterações internas mais drásticas sem o devido diálogo com a paróquia.
Juliana Varejão, membro da comissão, ressalta que a comunidade apoiou a recuperação do telhado, mas começou a questionar a ampliação das modificações. Ela alega que estruturas e elementos históricos de arte sacra foram removidos durante as obras. A comunidade expressa sua indignação especialmente pelo descarte de peças decorativas em folha de ouro, confeccionadas por uma das moradoras mais antigas do bairro.

Juliana enfatiza que esses elementos históricos compunham a identidade estética e religiosa da igreja desde suas origens. “Não queremos que toda essa arte sacra, presente desde o início, seja removida”, ressaltou, defendendo que qualquer modificação preservasse a história do espaço.
“Dada a antiguidade da igreja, pretendíamos manter suas características originais, mas esse diálogo não ocorreu”, disse. Com as mudanças internas em andamento, a comunidade teme pela retirada de peças históricas ou alterações em elementos únicos, como o altar de madeira entalhada. Ela acrescenta que o conselho paroquial havia aprovado somente a reforma estrutural do telhado, mas outras intervenções não foram discutidas amplamente.

A comissão critica a falta de diálogo entre o pároco e os moradores mais antigos. Juliana informa que tentativas de estabelecer conversa foram feitas desde janeiro, antes do início das obras, mas a falta de transparência levou a comunidade a coletar assinaturas e buscar a Arquidiocese. “Aguardamos um retorno, mas o tempo está passando e isso pode comprometer tudo”, conclui.
Os integrantes da comissão também mencionam que a igreja estava em processo de tombamento municipal, mas acreditam que essa tramitação foi interrompida devido às reformas. No documento direcionado à Arquidiocese, o grupo pede que as intervenções que comprometam o patrimônio histórico do templo sejam imediatamente paralisadas, permitindo apenas obras emergenciais relativas ao telhado. Além disso, solicitam a formação de uma comissão mediadora envolvendo a Cúria, especialistas e membros da comunidade.



