quarta-feira, setembro 30, 2026
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A Manutenção do Crédito para Endividados Prevê Aumento da Inadimplência, Segundo Economistas

A continuidade da concessão de crédito ao consumidor endividado é, atualmente, um fator crucial para evitar uma agravamento intenso de indicadores de inadimplência no Brasil, como destacaram os economistas do PicPay, Ariane Benedito e Matheus Pizzani, em entrevista à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Ariane mencionou que, durante a recente reunião do comitê financeiro da empresa, ficou claro que uma interrupção abrupta desse fluxo de crédito, seja por parte de instituições bancárias ou fintechs, pode gerar consequências indesejáveis. “Interromper a concessão de crédito pode levar a um aumento da inadimplência, ao tirar do devedor a ferramenta que o permite manter-se em dia com seus pagamentos. Se cortarmos o crédito, a inadimplência tende a aumentar”, ponderou a economista.

Ela também observou que muitos brasileiros atualmente utilizam cartões de crédito para quitar dívidas anteriores e contraem novos empréstimos para saldar débitos com outras instituições. Esse padrão, segundo Ariane, contribui para a manutenção da adimplência no curto prazo, embora elevem os índices de endividamento e comprometimento da renda.

Ariane identifica esse comportamento como uma forma de “crédito sujo”, que predomina nas linhas de crédito emergenciais, como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial. Ela destaca que essa modalidade de endividamento é preocupante, já que muitos consumidores recorrem a produtos onerosos apenas para gerenciar suas dívidas.

Entretanto, essa dinâmica, conforme ressaltam Ariane e Pizzani, é o que tem evitado um colapso na taxa de inadimplência. “Atualmente, não observamos uma deterioração significativa devido ao fato de que o crédito ainda permite que o consumidor transfira suas dívidas, equilibrando momentaneamente sua situação”, afirmou.

O resultado dessa estratégia gera uma “estabilização artificial” da adimplência. O consumidor permanece endividado e com parte de sua renda comprometida, mas, paradoxalmente, não entra em atrasos formais. “Ele se mantém dentro dos limites de crédito, mas essa situação é insustentável a longo prazo”, segundo Ariane.

A economista também relaciona esse panorama à recente inclusão financeira promovida por fintechs e bancos digitais, que ampliaram o acesso ao sistema financeiro. Embora essa inclusão tenha permitido às famílias um melhor aproveitamento de recursos, trouxe consigo o efeito colateral de um maior comprometimento da renda.

Ariane alertou que essa situação é estrutural e requer tempo, e não mudanças rápidas, para ser revertida. Ela não vê evidências de que a inadimplência tenha atingido seu ápice e afirma que a redução desses índices demandará anos. “Modificar esses números não é uma tarefa simples e exigirá um longo tempo de adaptação”, destacou. Para ela, cortar a concessão de crédito neste momento seria um golpe decisivo para a capacidade de pagamento dos devedores.

Falando sobre programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, a economista mencionou que a necessidade contínua de tais iniciativas demonstra a estrutura persistente do problema. “Necessitamos desses programas, mas é provável que, em poucos anos, ainda estejamos implementando novas versões, dada a natureza estrutural do endividamento”, declarou.

Ariane comentou ainda que a discussão sobre o custo do crédito precisa levar em conta os riscos envolvidos. Pressões para a redução dos spreads, segundo ela, ignoram essa realidade e podem resultar em uma redução na oferta de crédito. “Não é possível diminuir o spread sem considerar os riscos. A conta simplesmente não fecha”, afirmou. Ela mencionou que essa questão está em pauta internamente na área de crédito do PicPay, já que a empresa busca compreender como tem conseguido navegar em um contexto tão delicado sem sofrer impactos negativos. O objetivo é distinguir claramente entre endividamento e inadimplência.

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