Um relatório de auditoria com mais de 300 páginas trouxe à tona uma série de possíveis irregularidades em contratos e despesas da Câmara Municipal de Itaguaçu. O documento analisou as contas da Casa entre 2023 e 2025 e aponta fragilidades nos controles internos, além de suspeitas de desvio de recursos públicos.
A auditoria foi contratada em outubro de 2025 com o objetivo de examinar dados financeiros, emitir parecer contábil e sugerir melhorias administrativas e de transparência. Durante a análise, os auditores identificaram inconsistências em pagamentos de diárias, contratos de serviços e movimentações bancárias.
Na época em que parte dos fatos investigados ocorreu, a presidência da Câmara era exercida pelo vereador Odélio Aparecido Paulista (MDB). Atualmente, o Legislativo municipal é presidido pelo vereador Cristian do Lírio (Podemos).
Diárias, combustível e cursos sem comprovação
Entre os pontos levantados no relatório estão pagamentos de R$ 163 mil em diárias em 2023 e R$ 248 mil em 2024 sem documentação comprobatória que justificasse as viagens realizadas por vereadores ou servidores.
Outro caso citado envolve o Contrato nº 005/2023, no valor de R$ 91,5 mil para aquisição de combustível, cujo consumo foi considerado incompatível com a quilometragem possível de um único veículo da Câmara.
A auditoria também apontou aumento expressivo em contratos de alimentação. O Contrato nº 001/2024, destinado a serviços de buffet e padaria, totalizou R$ 49.450, valor que representa crescimento de 497% em relação ao ano anterior, sem justificativa detalhada nos registros.
Outro contrato de combustível, firmado por menos de 60 dias em 2024 e no valor de R$ 12.360, indicaria capacidade de rodagem superior a 18 mil quilômetros no período, número considerado fora do padrão para as atividades do Legislativo municipal.
Gastos sem documentos e serviços não comprovados
O relatório também menciona R$ 20 mil em cursos e capacitações realizados em 2023 sem lista de participantes ou certificados. Além disso, foram identificadas compras de celulares que somam R$ 11.328, sem nota fiscal localizada ou identificação dos usuários.
No campo de serviços, os auditores apontaram R$ 9.150 em corridas de táxi em 2023 e R$ 12.850 em 2024, ambas contratadas com o mesmo prestador e sem processo licitatório identificado.
Também consta pagamento de R$ 8.390 à empresa Atual Serviços sem comprovação da execução do serviço.
Já no caso de capacitações realizadas em 2024, o relatório registra R$ 130 mil pagos ao Instituto Capacitar por nove cursos sem lista de presença, certificados ou documentação completa.
Transferências bancárias levantam alerta
Um dos pontos considerados mais sensíveis envolve movimentações financeiras. A auditoria identificou transferências bancárias que somam R$ 359 mil realizadas em 2023 e 2024 para conta da contadora que acabou sendo afastada e presa no decorrer das investigações.
Diante do conjunto de inconsistências, os auditores recomendaram o encaminhamento do relatório ao Ministério Público do Estado do Espírito Santo e ao Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo.
Segundo o documento, o dano mínimo estimado ao erário é de R$ 1.136.441,52, embora o prejuízo total possa ser maior, já que parte das informações não pôde ser auditada devido à ausência de documentos.
Recomendações para a atual gestão
A auditoria também apresenta recomendações para melhorar os controles internos da Câmara, incluindo reforço na gestão contábil, revisão de processos administrativos e ampliação da transparência das informações públicas.
Com a conclusão do relatório, caberá à atual gestão da Câmara de Itaguaçu analisar as medidas sugeridas e avaliar possíveis providências administrativas ou legais.
Os citados no relatório foram procurados para comentar as irregularidades apontadas, mas não houve retorno até o momento.



