Em 2020, ao solicitar uma investigação sobre a origem da Covid-19, a Austrália enfrentou retaliações da China, que limitou importações australianas de produtos como vinho, cevada, carvão, carne e lagosta. Apesar das pressões, a Austrália não se rendeu, buscando novos mercados para suas exportações e fortalecendo suas alianças de segurança com nações amigas. No entanto, a China manteve o minério de ferro australiano fora das medidas restritivas, uma necessidade estratégica.
Essa situação ilustra a comparação proposta por Kenneth Maxwell e Robbin Laird em “O Brasil, a Austrália e a China no Mundo em Evolução”. Os dois países são democracias continentais do hemisfério Sul, têm um papel de potências médias, são grandes exportadores de commodities e possuem laços significativos com a China. Contudo, diante dessa dependência, as escolhas feitas por cada nação se mostraram distintas.
A Austrália optou por confrontar os riscos que essa resistência trouxe, diversificando seus mercados e aprofundando alianças por meio de acordos como Aukus, Quad e os Five Eyes. Contudo, essa postura não deve ser vista como um modelo ideal, já que a China precisava do minério de ferro do país, o que lhe conferiu maior margem para resistir.
Por outro lado, o Brasil estava em uma situação diferente em 2024, quando a China respondia por 73% das suas exportações de soja, 71% de minério de ferro e 44% do petróleo. Os autores ressaltam que essa forte integração econômica não deve ser interpretada apenas como submissão, mas como resultado de vantagens competitivas reais e da transformação do cerrado, além da expansão de empresas brasileiras no mercado global.
O verdadeiro desafio surge quando essa relação, que à primeira vista é benéfica, começa a restringir a autonomia do país. Maxwell e Laird descrevem isso como a “armadilha da potência média”, onde decisões que parecem lógicas e isoladas podem, com o tempo, comprometer a liberdade de ação futura.
Nesse contexto, as críticas mais incisivas dos autores ao governo Lula são compreensíveis. A posição brasileira em relação à guerra na Ucrânia, a defesa por uma menor dependência do dólar e a aproximação com a China indicariam uma escolha: a de que os benefícios econômicos imediatos superam os riscos estratégicos a longo prazo.
Conforme os autores argumentam, à medida que o Brasil investe nessa dependência, o custo para recuperar sua liberdade de escolha aumenta. Essa reflexão se estende ao conceito de “Sul Global”, onde Brasil e Austrália aparecem como representantes autênticos dessa região, caracterizada pela exploração colonial e pela dependência da exportação de recursos naturais. Em contraste, potências como a China, Rússia e Índia reivindicam essa identidade quando lhes convém.
Maxwell e Laird não concluem que o Brasil deve simplesmente copiar os passos da Austrália. O que defendem é que a manutenção da autonomia tem seu preço; diversificar mercados, preservar a capacidade industrial e evitar dependências requer investimentos financeiros e sacrifícios políticos. Procrastinar nessas decisões também tem um custo. Quanto mais intenso for o comprometimento, menor será a liberdade quando os interesses nacionais divergirem.
Por fim, a provocação mais instigante deixada por essa análise não se refere a quão dependentes são Brasil e Austrália da China, mas sim até onde cada um está disposto — e consegue — pagar para afirmar sua autonomia diante de Pequim.



