O Brasil está prestes a começar a temporada de plantio, mas agricultores como Irineu Orth não estão comemorando em um ano que promete ser recorde para as safras de soja. A razão para essa incerteza é a crise global de diesel, que coincide com uma alta sazonal na demanda por esse combustível essencial para maquinário agrícola.
Como o maior exportador de produtos como soja, algodão, café, açúcar e suco de laranja, o Brasil depende do diesel para operar tratores e caminhões utilizados na colheita. No entanto, a pressão sobre os custos pode impactar negativamente as cadeias de suprimento globalmente. O país, que é o segundo maior importador de diesel após a Austrália, enfrenta o risco de agravar a crise mundial do combustível à medida que a demanda aumenta nessa época do ano.
Irineu Orth, preparando-se para semear 22.000 acres, semelhante à área do Walt Disney World, comentou: “Existem poucos aspectos da agricultura que não envolvem diesel, e os custos estão corroendo nossos lucros”. A guerra no Irã desestabilizou os mercados de energia, e embora uma parte do petróleo bruto esteja sendo exportada do Estreito de Ormuz, o fluxo de produtos refinados, como o diesel, caiu drasticamente. Além disso, as exportações russas de diesel foram cortadas devido ao conflito na Ucrânia, complicando ainda mais a situação.
A demanda por diesel dos EUA, que já estava elevada, deverá aumentar ainda mais à medida que os agricultores brasileiros iniciam o plantio de soja e algodão e comercializam a colheita de milho. Historicamente, o mês de setembro registra picos nas importações de diesel e gasóleo por parte do Brasil.
Atualmente, os agricultores que estão prestes a operar suas máquinas enfrentam os preços sazonais mais altos do diesel em quatro anos, enquanto os conflitos globais interferem nas rotas comerciais. A participação dos produtores de diesel dos EUA no abastecimento brasileiro diminuiu desde o início do conflito na Ucrânia, enquanto o diesel russo, antes destinado principalmente à Europa, está sendo redirecionado para outros mercados, incluindo o Brasil.
Este ano, no entanto, houve um crescimento das importações americanas após a proibição russa, quando o Brasil comprou a maior quantidade de diesel dos EUA em quase quatro anos. Os embarques da Rússia para o Brasil caíram drasticamente em comparação ao mês anterior.
Outros países que anteriormente poderiam atuar como fornecedores, como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, estão limitados pela movimentação no Estreito de Ormuz. As refinarias brasileiras, apesar de estarem operando com alta eficiência, ainda necessitam de diesel importado para suprir a demanda.
Atualmente, a dependência do Brasil em relação ao diesel americano é anômala. Contudo, especialistas alertam que os estoques dos EUA estão nos níveis mais baixos da história, o que torna difícil atender a aumentos repentinos na demanda.
Setembro, um mês crucial com o início da plantação no Hemisfério Sul e a colheita no Hemisfério Norte, trará uma demanda acentuada por diesel, com picos esperados em outubro. A logística de transporte marítimo indica que o diesel da Coreia do Sul se torna a alternativa mais viável para o Brasil neste momento, embora essa viabilidade possa mudar rapidamente conforme a demanda aumenta.
Por enquanto, o mercado global de diesel pode enfrentar desafios sem se tornar um verdadeiro caos, mas essa situação não está tão distante quanto parece. Qualquer interrupção significativa na produção de diesel nos EUA poderia exacerbar a crise.
Irineu Orth, agricultor de 76 anos, reconhece que não há muitas opções para lidar com os altos preços do diesel. Com a colheita de inverno finalizada e o plantio previsto para o estado da Bahia até meados de setembro, ele reflete: “O que aprendi ao longo dos anos é que precisamos seguir em frente. O trabalho deve ser feito”. Apesar de os preços de diesel no Brasil permanecerem elevados, houve uma leve diminuição em comparação aos picos de março, mas as preocupações em torno da produção sustentável continuam. Caso uma grande refinaria enfrente problemas, as importações poderiam aumentar substancialmente, agravando ainda mais a situação.



