A esposa de Joceir Sousa de Araújo, um morador de Muqui, declarou que sua família não estava envolvida nas celebrações eleitorais, que ocorreram após a vitória do presidente Lula.
Joceir, de 42 anos, sofreu um descolamento de retina no olho esquerdo ao ser atingido por uma bala de borracha durante uma operação da Polícia Militar no último domingo, dia 25. A ação policial gerou ferimentos em pelo menos 12 pessoas, conforme relatos de moradores, sendo o caso de Joceir o mais grave, já que ele não estava participando de nenhum protesto.
Após o incidente, ele recebeu atendimento em um hospital local e, no dia seguinte, foi transferido para o Hospital Evangélico de Vila Velha para uma cirurgia. No entanto, o procedimento não pôde ser realizado devido à inflamação do ferimento, e uma nova tentativa está prevista para a próxima semana.
Sirléia Raymundo, esposa de Joceir, informou que a situação de seu olho é crítica e os médicos advertiram sobre o risco de perda de visão. Embora o ferimento tenha apresentado certa melhora, a visão de Joceir continua prejudicada. Ela mencionou que ele, que trabalha como marteleteiro em uma pedreira, já estava afastado do trabalho devido a um acidente que afetou seu joelho.
Sirléia ressaltou que nem ela nem Joceir têm envolvimento político. Eles saíram para votar por volta das 16h e decidiram permanecer na praça de Muqui com suas duas filhas, uma adolescente de 14 anos e uma criança de 3 anos.
Em um momento, a filha menor pediu para tirar fotos com alguns policiais presentes na operação. Sirléia comentou que a criança gostava de policiais, mas agora está traumatizada.
Após o anúncio oficial do resultado, alguns jovens começaram a comemorar nas ruas e a polícia pediu que desocupassem a via, mas a família, que estava a uma certa distância, não participou das celebrações.
Em um instante, Sirléia percebeu que um objeto caiu perto da filha mais nova, inicialmente confundido como uma bomba caseira ou um artefato de festa. No entanto, uma fumaça começou a se espalhar e a criança apresentou reações adversas, provavelmente devido ao gás lacrimogêneo.
Diante da situação caótica, a família entrou em pânico e tentou se afastar. Joceir se aproximou dos policiais e pediu que parassem, enfatizando que sua filha, que tinha tirado fotos com eles, estava no meio da confusão, momento em que foi atingido por um tiro de bala de borracha.
Na segunda-feira (26), a Polícia Militar emitiu um comunicado, alegando que a manifestação estava pacífica até que começaram a ocorrer comportamentos que comprometiam a segurança pública. O comandante da 15ª Companhia Independente da PMES, em um vídeo divulgado, sustentou a versão da polícia, mencionando a presença de “infiltrados” que atacaram os agentes.
Sirléia criticou a ação policial, afirmando que os disparos foram feitos indiscriminadamente, sem considerar a presença de crianças na área. “Se isso realmente ocorreu, eles não reprimiram quem deveriam”, lamenta.
Cobrança
A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa solicitou apuração urgente sobre a violência policial em Muqui, endereçando ofícios a diversos órgãos de segurança e ao Judiciário.
A deputada estadual Camila Valadão, presidente da Comissão, destacou a necessidade de garantir que as ações das forças de segurança respeitem a Constituição e os direitos fundamentais, enfatizando que o exercício do direito à reunião pública não exime o estado de atuar de forma legal e proporcional.
A deputada Iriny Lopes também pediu uma investigação sobre um episódio ocorrido em Pedro Canário, no qual a polícia foi filmada invadindo propriedade privada na véspera da votação, queimando uma bandeira e disparando armas.



