Na 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, que acontecerá em Aracruz, no norte do Espírito Santo, líderes indígenas e representantes de diversas regiões do Brasil expressaram preocupações sobre a centralização das atividades no Sesc, um ponto considerado emblemático para o empresariado local.

O evento, promovido pelo Ministério da Cultura em parceria com a Secretaria da Cultura do Estado, será realizado entre os dias 19 e 24 de maio, reunindo fóruns, debates, oficinas e vivências culturais, todos sob o tema “Pontos de Cultura pela Justiça Climática”. Este é o primeiro encontro que ocorre fora de uma capital, utilizando territórios indígenas Tupinikim e Guarani, embora a programação tenha gerado críticas por manter a maior parte das atividades no Sesc Aracruz, ao invés de nos locais de origem das comunidades.
A delegada Bárbara Tupinikim manifestou descontentamento sobre essa escolha, alertando que a concentração no Sesc, próximo ao setor industrial, levanta preocupações sobre o impacto que isso pode ter nos territórios indígenas. “É uma crítica que temos, pois queríamos que as atividades se realizassem nas aldeias”, afirmou.

Os líderes indígenas também destacaram que mais inclusão no formato das atividades nos territórios poderia proporcionar oportunidades para economia criativa, feiras de artesanato, intercâmbio cultural e circulação de delegações nas aldeias. Essa expectativa foi alimentada pela abertura do encontro nas comunidades, mas as ideias não se concretizaram, causando frustração.
A organização da Teia ressalta o objetivo de fortalecer a política Cultura Viva, promovendo a articulação entre cultura, meio ambiente, direitos coletivos e participação social. A programação abrange o 5º Fórum Nacional dos Pontos de Cultura, o 2º Fórum Nacional de Gestores da Cultura Viva e a 1ª Reunião do Grupo de Trabalho para o Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas.
Líderes indígenas mencionaram tentativas de diálogo com a organização para garantir maior presença das comunidades no evento, incluindo propostas para realização de uma feira de artesanato indígena, criação de espaços de assembleia e atividades culturais conduzidas pelos coletivos locais.
O coordenador do Pontão de Cultura Taba Okara, Jocelino Ka’arondara, anunciou planos para uma pré-Teia que visa consolidar propostas e promover a participação dos povos originários nos debates. Serão realizadas atividades paralelas nos territórios, como noites culturais e sessões de cinema, voltadas para a construção de propostas para os fóruns nacionais relacionados à Cultura Viva.
Recentemente, durante uma reunião dos pontos de cultura, surgiram preocupações sobre a falta de clareza e informações sobre as atividades nas comunidades indígenas e a participação da população, a poucos dias do evento.
Outro aspecto destacado é a necessidade de criar um Plano Nacional das Culturas dos Povos Indígenas, que deve estar presente nas discussões do encontro. Esta proposta busca desenvolver políticas públicas culturais a partir da escuta atenta de organizações e lideranças indígenas em todo o Brasil.
Os participantes também alertaram para a relevância da justiça climática e reivindicaram que as discussões ambientais não ocorram de forma isolada dos conflitos socioambientais históricos enfrentados por estas comunidades, como os impactos do crime da Samarco/Vale-BHP e o desenvolvimento de grandes empreendimentos poluidores.
As críticas também se estendem a grandes eventos climáticos que, na visão dos envolvidos, priorizam negociações econômicas em detrimento de ações efetivas de reparação ambiental e fortalecimento das comunidades tradicionais. Nesse contexto, destacam a incoerência entre a retórica ambiental e as políticas efetivamente implementadas, especialmente com propostas que buscam flexibilizar o licenciamento ambiental no país.
Apesar das divergências, as lideranças reconhecem a importância simbólica da Teia em Aracruz. A programação contará com mais de 200 atividades, incluindo fóruns, oficinas, rodas de conversa, apresentações artísticas e feiras de economia criativa. Haverá também debates sobre saúde mental, cultura digital e outros temas sociais relevantes.
Para as comunidades indígenas, a Teia é uma oportunidade para mostrar a força de seus territórios na construção cultural brasileira, além de levantarem questionamentos sobre participação e autonomia nas políticas públicas voltadas para seus povos. Uma das atividades do encontro, a Grande Roda Direitos Culturais, Bem Viver e Justiça Climática, resultará na elaboração da Carta de Aracruz, um documento que terá função política e será construído coletivamente pelos participantes.



