Na hora da votação, cada eleitor faz suas escolhas, mas fora da cabine, os laços de amizade podem ser mais fortes. Em um cenário de polarização política, indivíduos com preferências diversas demonstram que é viável discordar sem que isso leve ao afastamento.
Os advogados Sérgio Araújo Nielsen, de 43 anos, e Ricardo Barbosa Mendonça, de 42, são amigos há 14 anos e representam bem essa ideia, já que suas visões políticas são distintas – Nielsen se identifica com a direita, enquanto Mendonça é associado à esquerda. Eles compartilham que debates sobre política fazem parte da amizade, mas o respeito mútuo é sempre a prioridade. “Expomos os pontos de vista um do outro, mas no final sempre encontramos um consenso. Temos nossas opiniões bem definidas”, explica Sérgio.
Ambos sustentam que a amizade não está condicionada à concordância de ideias, mas sim ao respeito pelas opiniões e escolhas do outro. “A democracia exige que existam diferenças, e isso não deve acabar com a amizade”, declara Ricardo.
A médica psiquiatra Letícia Mameri salienta que pessoas com opiniões políticas divergentes podem sim construir uma amizade sólida. Ela narra que conhece casos em que, apesar das discrepâncias nas escolhas eleitorais, prevalece o respeito nas relações. “A rivalidade política não deve barrar laços de amizade. Na verdade, a amizade é cimentada por afeto, confiança e experiências compartilhadas, permitindo discordâncias significativas”, ela afirma.
A profissional destaca que, para que as relações se mantenham saudáveis, é essencial que os debates não se tornem um teste de lealdade e que haja um reconhecimento claro dos limites nas conversas. Ela observa que a dificuldade das relações aumenta quando a posição política do outro passa a definir a percepção que temos dessa pessoa. No conceito de “polarização afetiva”, a aversão vai além de opiniões e partidos, afetando as próprias relações.
Para manter e preservar vínculos, Letícia indica algumas atitudes que fomentam a convivência harmoniosa. Isso inclui ouvir o outro sem transformar a conversa em uma disputa, tentar compreender as razões por trás das opiniões divergentes e, caso o diálogo se torne hostil, interrompê-lo. “Entretanto, isso não implica que alguém deva suportar uma amizade tóxica ou aceitar atitudes desrespeitosas. As diferenças políticas podem impactar as relações e devem ser levadas a sério”, ela ressalta.
Após o primeiro turno das eleições, muitos eleitores experimentaram uma mudança de expectativa para frustração, manifestando suas emoções intensamente nas redes sociais. Nesse contexto, a expressão “psicose política” começou a ser utilizada por internautas para descrever o envolvimento emocional gerado pelos resultados eleitorais.
Entretanto, Letícia Mameri alerta que o termo “psicose política” não é um diagnóstico médico oficialmente reconhecido. “A psicose é uma condição que pode prejudicar a capacidade de avaliar a realidade e envolve sintomas como delírios e alucinações”, explica. Sentir-se irritado ou ansioso em função de questões eleitorais, segundo ela, não implica, automaticamente, em apresentar esse diagnóstico.
A especialista indica que a utilização de termos como “psicose” e “surto” deve ser ponderada, pois pode alimentar estigmas em relação a pessoas com transtornos mentais, associando a saúde mental a fraqueza de caráter ou comportamentos agressivos.
Cláudio Miranda, terapeuta familiar e psicopedagogo clínico, sugere que, para gerir a ansiedade provocada por resultados eleitorais, especialmente para aqueles que se sentem demasiadamente afetados, é recomendável diminuir o tempo nas redes sociais. Ele adverte que, se o problema persistir, é importante buscar orientação profissional.



