Há dez anos, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o comandante das Farc, Rodrigo Londoño, selaram um importante momento no processo de paz ao apertarem as mãos em Cartagena, diante de uma multidão vestida de branco. Santos declarou, em 26 de setembro de 2016, que o que havia sido assinado era um manifesto do povo colombiano cansado da guerra. Timochenko, como é conhecido Londoño, expressou suas sinceras desculpas às vítimas do conflito, enquanto a plateia o aplaudia de pé.
O acordo culminou no fim de 52 anos de confrontos entre o governo colombiano e a guerrilha marxista, resultando na concessão do Prêmio Nobel da Paz ao presidente Santos. Contudo, essa conquista seria apenas o início de um longo caminho. Menos de uma semana após o evento, a esperança se desfez quando a população rejeitou o texto original em um plebiscito, com uma diferença de apenas 54 mil votos (50,2% a 49,8%). O novo documento foi assinado, em novembro, em uma simples cerimônia no Teatro Colón, em Bogotá.
O início conturbado já anunciava os desafios que viriam na implementação do acordo. Uma década após sua assinatura, a Colômbia confronta uma nova onda de violência sob a liderança de um presidente que fez declarações contundentes contra a esquerda. A análise do legado do acordo revela uma dualidade: mais de 13 mil ex-combatentes abandonaram as armas, dos quais aproximadamente 85% estão em processos de reintegração, mas a violência marca presença com o aumento de grupos armados e um crescimento nos massacres e deslocamentos forçados.
Desde 2016, nenhum governo conseguiu conter o aumento de combatentes. De acordo com a Força Pública, em 2017 havia 6.519 membros nas três principais organizações armadas, número que aumentou para 24.610 em 2025, quase quadruplicando em oito anos. A quantidade de deslocamentos forçados quase dobrou desde 2016, atingindo mais de 290 mil em 2025, enquanto o número de mortos em massacres subiu de 137 para 256 no mesmo período.
Para muitos estudiosos, um dos fatores que podem ser vistos como falha do acordo é a velocidade de sua implementação. A Kroc, instituição especializada em estudos de paz, estima que, até 2025, apenas 36% das 578 cláusulas do acordo foram plenamente cumpridas, e 8% não tiveram início, apesar do prazo para a sua execução ser 2031, 15 anos após a assinatura. A instituição advertiu que o tempo para cumprir as promessas do acordo está se esgotando, deixando as vítimas à espera de resultados concretos.
Paola Molano Ayala, especialista em direito internacional, aponta que, embora a desmobilização das Farc e o fim do conflito sejam conquistas significativas, um dos principais pontos não cumpridos é a proteção dos ex-guerrilheiros. O relatório mais recente da Missão de Verificação das Nações Unidas indicou que 493 ex-combatentes foram assassinados desde a assinatura do acordo.
A criminalidade em geral também aumentou, refletindo a resposta inadequada às novas ameaças à segurança. Segundo Ayala, a falta de ocupação dos territórios antes controlados pela Farc pelas instituições permitiu o ressurgimento da violência. A oposição ao acordo não é novidade, conforme evidenciado pelo plebiscito que rejeitou o texto e que, segundo analistas, foi uma falha crucial do governo Santos.
Em 2017, um aliado de Iván Duque, que seria eleito presidente no ano seguinte, anunciou que o principal desafio de seu partido seria anular o acordo com as Farc. Como candidato, Duque declarou que as modificações no acordo deveriam preservar o Estado de Direito. Em 2022, a Colômbia elegeu seu primeiro presidente de esquerda, Gustavo Petro, um defensor do acordo. No entanto, seu governo ainda não teve sucesso em avançar nos compromissos e priorizou uma política de “paz total”, que resultou em um ciclo vicioso de negociações com grupos armados remanescentes.
A falta de comprometimento por parte do Estado tem alimentado desconfiança em relação à continuidade dos esforços de paz. Com a transição de governo, muitos se perguntam quem irá cumprir as promessas assumidas, diante das incertezas políticas. O presidente Abelardo de la Espriella, que venceu na recente eleição, pretende destinar um montante significativo do orçamento para a implementação do acordo, embora o valor proposto seja menor do que o do período anterior.
Ainda assim, é possível vislumbrar um futuro positivo para o acordo de paz colombiano. Estatísticas indicam que cerca de 50% dos processos de paz fracassam cinco anos após sua assinatura. O cenário da Colômbia é complexo; dez anos depois, não é possível afirmar que o processo de paz com as Farc falhou ou chegou ao fim.



