Tobias Rausch, político do partido AfD (Alternativa para a Alemanha), foi designado nesta terça-feira (6) como presidente do Parlamento estadual de Saxônia-Anhalt, em Magdeburgo. A ascensão de Rausch é considerada um marco relevante para a Alemanha atual, sendo descrita por uma oposicionista como a escolha do “primeiro presidente parlamentar de extrema direita desde Hermann Göring”.
Göring, que foi um dos principais auxiliares de Adolf Hitler durante o regime nazista, serviu como referência histórica na crítica de Heidi Reichinnek, líder do partido A Esquerda. Em seu discurso, Reichinnek se voltou mais para a CDU (União Democrata-Cristã), partido do primeiro-ministro Friedrich Merz, do que para a própria AfD.
Na votação secreta, Rausch obteve 48 votos, superando a soma de 44 votos da AfD, que recebeu 39, e da pequena legenda BSW, que arrecadou 5 votos. As especulações indicam que os quatro votos adicionais que lhe permitiram ser eleito poderiam ter vindo da bancada da CDU. Contrariamente, os partidos Verdes, SPD e A Esquerda se posicionaram contra, enquanto a CDU optou pela abstenção, uma decisão considerada dúbia.
Reichinnek ressaltou: “Quando se tratou de elevar um extremista de direita ao cargo mais alto, 9 dos 15 deputados da União [CDU] decidiram conscientemente abrir caminho para ele, seja votando a favor ou se abstendo”.
Matthias Miersch, líder do SPD, adotou uma postura mais moderada em relação ao aliado de coalizão federal, mas destacou que a situação certamente seria debatida em Berlim, referindo-se aos desafios enfrentados por seus partidos. Thorsten Frei, líder do grupo parlamentar da CDU no Bundestag, expressou preocupação com o episódio, mas afirmou que atribuir os quatro votos extras ao partido seria uma conjectura infundada.
A situação se complicou várias horas depois, quando Hans-Thomas Tillschneider, uma figura polêmica da AfD, foi eleito vice-presidente da Casa com 44 votos. A BSW prontamente se distanciou do voto em Tillschneider, um partido que afirma ser de esquerda e conservador ao mesmo tempo.
O cenário político em Saxônia-Anhalt chamou atenção mundial no mês anterior, quando a AfD conquistou 44% dos votos nas eleições regionais. Seu principal candidato, Ulrich Siegmund, que foi avistado no Parlamento com uma caneca que dizia “lágrimas da esquerda”, deverá ser eleito governador em dezembro. A confirmação de Siegmund será marcada por referências históricas ao nazismo, configurando a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que a Alemanha terá um governo de extrema direita.
Após sua eleição, Rausch declarou que não assumiria a presidência como representante de um grupo, mas como presidente do Parlamento de Saxônia-Anhalt, prometendo evitar manobras regimentais e retaliações. Ele frisou que os tempos de ‘Brandmauer’, a prática de não negociar ou votar com a AfD, deveriam ficar no passado, um argumento que os políticos da CDU local utilizam para justificar uma aproximação com o partido populista.
No último final de semana, Merz reiterou que a CDU não se associaria à extrema direita ou à extrema esquerda, afirmando que tal aliança comprometeria a segurança da Alemanha. Sua declaração incluía a referência à intenção da AfD e da Esquerda de reestabelecer o diálogo com a Rússia, em oposição ao suporte à Ucrânia.
A proposta de retomar a compra de gás russo desperta interesse popular, pois poderia reduzir as contas de energia. Contudo, a realidade da política regional alemã é bastante diversa no momento. Membros da CDU enfrentam a pressão de um governo Merz em queda de popularidade e o crescente apoio à AfD, levando a um afastamento das preocupações ideológicas e do peso do passado.
Recentemente, a cidade de Heidenau, na Saxônia, também foi notícia depois que a Câmara Municipal decidiu, com votos da AfD e da CDU, proibir as pedras de tropeço, homenagens a vítimas do nazismo.
O partido de Rausch e Siegmund é classificado como uma legenda de extrema direita pelos órgãos de segurança do governo alemão, com membros e alas sob investigação por discurso de ódio e ligações com o neonazismo. Com promessas populistas e reacionárias, a AfD lidera as intenções de voto no país desde as últimas eleições federais, com analistas atribuindo esse sucesso mais à fraqueza dos partidos tradicionais centristas do que a propostas que, em grande parte, são consideradas inviáveis.


