O Canadá sempre se destacou por sua imagem de nação desenvolvida, geralmente afastada dos holofotes e retratada como um vizinho educado e gentil dos Estados Unidos. Entretanto, sob a liderança do primeiro-ministro Mark Carney, o país parece estar se preparando para uma nova abordagem. Carney, ex-presidente do banco central canadense e do Banco da Inglaterra, tem desafiado a agressividade de Donald Trump, buscando unir “potências médias” em defesa do multilateralismo, ao mesmo tempo em que diminui a dependência do Canadá em relação aos EUA.
Carney, de 61 anos, assumiu seu cargo de forma inesperada, após a renúncia de Justin Trudeau em um momento de crise. Com as pesadas tarifas impostas por Trump e ameaças de anexação, Carney emergiu como um símbolo da resistência canadense. Em um discurso impactante em Davos, ele declarou o fim da “ordem internacional baseada em regras” e convocou alianças que não dependessem dos Estados Unidos, uma posição ousada para um país que exporta cerca de 75% de seus produtos para os americanos.
Recentemente, Carney lançou a iniciativa “Parceiros pelo Multilateralismo” durante as Nações Unidas, com o objetivo de criar uma plataforma inclusiva para países de diversas origens políticas. Ele descreveu a proposta como um novo espaço voltado para coalizões práticas que vão além das divergências, enfatizando que não se trata de um bloco ou burocracia. Analistas afirmam que Carney é um dos principais esforços para estabelecer uma maior independência em relação aos EUA.
Durante a abertura da Assembleia-Geral da ONU, Carney destacou a necessidade de reduzir os laços com os Estados Unidos, especialmente em um contexto em que líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping não compareceram. O discurso de Trump, focado em sua rivalidade com o Irã e cortes na ONU, reforçou essa percepção de um multilateralismo ameaçado.
Enquanto se articula para enfrentar Trump, Carney também busca diversificar as relações comerciais do Canadá. A União Europeia concedeu ao país o status de “membro associado”, o que Carney tem aproveitado para fortalecer laços comerciais, incluindo uma visita oficial à China onde firmou acordos significativos de redução de tarifas. Além disso, o primeiro-ministro estabeleceu colaborações com o Japão, México e Ucrânia, e planeja receber o primeiro-ministro indiano Narendra Modi em Ottawa, após a restauração das relações que foram prejudicadas no governo anterior devido a um incidente envolvendo a morte de um opositor.
Com uma política discreta, mas efetiva, Carney alcançou altos índices de aprovação, próximos a 70%. Embora ele se posicione como um economista técnico na política interna, sua oposição a Trump o transformou em uma figura de destaque no cenário internacional, estabelecendo acordos continuamente. Descolar-se da forte influência americana e unir outros países em torno do Canadá para formar uma frente contra a administração Trump são desafios complexos que Carney está determinado a enfrentar, testando novos limites na política global.
Publicado em VEJA em 25 de setembro de 2026, na edição nº 3014.



