Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos que se tornou um ícone na luta contra a crise habitacional na Espanha, faleceu na quarta-feira, dia 7. A idosa estava internada no Hospital Gregorio Marañón, em Madrid, desde o dia em que foi despejada à força de seu apartamento, em 23 de setembro.
A notícia da morte de Abascal foi confirmada pelo Sindicato de Inquilinos da Espanha e sua família, embora a causa da morte não tenha sido divulgada. De acordo com informações, Maricarmen utilizava cadeira de rodas e necessitava de assistência para tarefas diárias. Nos meses que antecederam sua morte, sua saúde se deteriorou drasticamente, com perda de massa muscular e dificuldades para se alimentar.
O sindicato destacou em um comunicado o “exemplo de luta” que Abascal representou e enfatizou a onda de manifestações que seguiram seu despejo, indicando que esse episódio “representa um antes e um depois na história deste país”.
Após o falecimento de Maricarmen, os principais sindicatos da Espanha convocaram uma greve geral para o dia 11 de novembro, agindo a menos de três semanas das eleições antecipadas, com foco em exigências por “melhores salários” e “moradia digna”.
Maricarmen foi forçada a deixar seu lar de 71 anos, situado no bairro de Retiro, que foi adquirido por um fundo de investimento que aumentou o aluguel de cerca de 500 para 1.650 euros mensais. Ela teve apenas 30 minutos para recolher seus pertences essenciais, e sua retirada foi marcada por protestos, culminando com a idosa sendo levada em uma maca por assistentes sociais até uma ambulância. Sua advogada alegou que havia um pedido judicial pendente e uma oferta anônima para quitar os aluguéis, que não foi aceita pelo proprietário, que se recusou a assinar um novo contrato.
O caso de Maricarmen ganhou destaque em meio à crise habitacional que afeta cidades espanholas, caracterizada pelo aumento dos aluguéis, gentrificação e falta de moradias acessíveis. Enquanto o governo espanhol defende a proteção dos inquilinos e controles mais rígidos sobre os aluguéis, o governo regional de Madrid adota uma postura mais favorável ao mercado.
Os protestos resultantes da situação de Maricarmen pressionaram o primeiro-ministro Pedro Sánchez a propor medidas emergenciais para combater os altos preços dos aluguéis e a falta de acesso à moradia. Entretanto, essas propostas foram rejeitadas pelo Congresso na última sexta-feira. No dia seguinte, manifestantes lotaram as ruas em toda a Espanha, protestando contra a crise habitacional. Em Madrid, a estimativa oficial foi de 70 mil participantes, enquanto os organizadores calculam que havia cerca de 500 mil.
Os manifestantes pediam a redução dos aluguéis e proteções contra despejos. O movimento já estava planejado antes da votação no Congresso, mas a derrota parlamentar adicionou pressão sobre o primeiro-ministro. A primeira proposta rejeitada buscava suspender despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, prorrogar contratos de aluguel que terminassem antes de 2028, aumentar impostos sobre imóveis turísticos e restringir aquisições residenciais por fundos de investimento. Outra proposta, que previa a renovação automática de contratos de aluguel, também foi derrotada.
O aumento no custo das moradias é um indicativo da insatisfação popular. No segundo trimestre de 2026, os preços de compra de imóveis subiram 12,2% em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme indicado pelo Instituto Nacional de Estatística da Espanha. Enquanto isso, os imóveis usados se tornaram 12,9% mais caros, e os novos aumentaram 7,4%. Em relação a preços do primeiro trimestre, a alta geral foi de 3,4%, refletindo uma tendência nos preços de venda, e não de aluguel.


